ROBERTO B. DA S. SÁ
Acabo de regressar do Congresso do Sindicato Nacional dos Docentes das Universidades (Andes-SN), realizado em Manaus. Antes, vale dizer que se trata de um dos poucos sindicatos não cooptados pelo governo petista, bem como o primeiro a vivenciar um novo modelo de sindicato. Em outras palavras, o Andes ainda é autônomo e democrático. Prova disso foi sua retirada da CUT, ou seja, o braço direito do PT. Diante disso, sempre digo que o aprendizado que tenho tido com valiosos professores de todas as partes tem sido determinante para minha atuação, seja na dinâmica mais específica de meus trabalhos acadêmicos, seja na própria escritura de meus artigos de jornal. Sem a participação que tenho no Andes, talvez eu conseguisse deixar ... a vida me levar... sem pensar para onde e como a vida me leva. Todavia, nunca deixei de enxergar problemas e contradições que há no Sindicato. Lamentavelmente, os problemas e as contradições estão se avolumando de tal forma, que começo a me preocupar com o futuro dessa indispensável legenda do pensamento crítico nacional. E de seus problemas e contradições, o que mais me parece grave é que o Andes aos poucos vai deixando de ser um sindicato essencialmente classista, que lhe é central e direcionador desde a origem, para abraçar causas racistas; se se preferir um eufemismo, raciais/étnicas, atravessadas também por questões de gênero. Explicando: há anos, lideranças de alguns movimentos sociais, destacadamente de movimentos negros e de gênero (mulher, gays et alii), atuando legítima e organizadamente nos espaços deliberativos do Andes, têm feito vingar no Sindicato o germe de uma perigosa mudança de rota. Trocando em miúdos: tais lideranças, movidas pela perspectiva teórica pós-moderna/pós-crítica, que tão bem se ajusta às permissões neoliberais de suas sobras à classe trabalhadora, têm conseguido convencer o coletivo do Sindicato a aprovar pontos contempladores de questões meramente étnicas e de gênero. A classe trabalhadora já está sendo secundarizada em várias e centrais deliberações. Isso voltou a ocorrer em Manaus. Definitivamente, só acredito na luta que busque contemplar todos os trabalhadores, independentemente da (de)marcação de cor e/ou gênero. Por isso, penso que o Andes, paradoxalmente, já está contribuindo com algumas das caricatas políticas governamentais, que tanto combate. E como faz isso? Sob a bandeira de reparos de dívidas históricas que remontam o período colonial, faz isso toda vez que aprova pontos que ajudem a consolidar as tais ações afirmativas, berço quentíssimo das cotas raciais, principalmente nas universidades. Faz isso quando aprova seminários específicos para tratar dos problemas grupais, destacando a violência contra a mulher ou contra gays. Infelizmente, a violência é para todos. No referido congresso do Andes, havia quem defendesse a necessidade de especificar até a cor da mulher agredida: negra. Na última hora, o absurdo foi atenuado, quando se incluiu também a indígena. Porém, tais reparos não passam de remendos em pano esgarçado; afinal, há outras mulheres que precisam da luta, dentre elas as ciganas e as brancas pobres. Quando aponto essas contradições não pressupõe que eu ignore os problemas dos vários grupos sociais. Portanto, não se trata de enxergar ou não as demandas. Trata-se, apenas, de apostar na forma de enfrentamento. E a meu ver, a melhor forma ainda é a luta de classe e não a de grupos. A opção pelas lutas grupais só fragmenta o Movimento Docente. Definitivamente, não aglutina! * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, dr. Em Jornalismo/USP e prof. De Literatura/UFMT
[email protected]