ARTIGO
Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009, 20h:04
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EDMAR AUGUSTO VIEIRA
Cuidado, trote
Uma das coisas mais intrigantes no trote é a sua ampla aceitação. A perplexidade gerada pelos excessos só pode ser explicada pela internalização dessa prática como conduta socialmente aceita. Alguns veem no trote uma forma de integração e de socialização, mas o fato é que esses objetivos poderiam ser alcançados por meios mais civilizados. Para as autoridades os problemas só surgem quando são adentradas as fronteiras do Código Penal, o que tem ocorrido com muita freqüência. Já se disse que o homem encontrou no esporte uma forma de lidar com a violência de forma não destrutiva. Talvez o trote, em estágio mais primitivo, ainda seja um esporte sem regras. Daí ser tênue a linha divisória entre o socialmente aceito e o socialmente condenável. Mesmo com os excessos chocantes, raramente se questiona o edifício do trote, que é sua ampla aceitação. Suspeito que o trote violento seja uma forma de manifestação dos instintos mais primitivos do homem, traços de uma era pré-civilizatória que teima em sobreviver em nós. Talvez Rousseau estivesse errado: o homem é intrinsecamente mau, apenas é domado para viver em sociedade, assim como o cão é domesticado para não atacar nossas crianças. Talvez haja uma Laranja mecânica reprimida em cada um de nós e só nos damos conta disso quando nós ou nossos filhos são as vítimas. No fundo não há muita diferença entre queimar um índio, espancar um mendigo, agredir ou impor humilhação a um calouro. São traços de um mesmo sadismo que se manifesta em graus variáveis conforme as circunstâncias (teor de álcool, ânimo de massa e grau de proximidade do outro). Índios, mendigos e homossexuais correm maiores riscos por serem social e psicologicamente mais distantes e porque não dispõem de proteção social e jurídica eficientes. O calouro é alguém perigosamente próximo. Como foram capazes de fazer isso com o meu filho, um igual? Excessos à parte, por que muitos calouros aceitam e festejam o trote? Em parte porque também esperam praticá-lo quando tiverem oportunidade de fazê-lo. Em parte porque se encontram inebriados pela euforia de uma conquista que sabem ser importante para suas vidas. Por incrível que pareça, ser vítima é uma forma de dar visibilidade social e essa conquista. Além disso, eles observam que o tratamento é imposto à coletividade de seus semelhantes. Então, melhor aceitar e entrar na dança, inclusive porque os custos sociais e psicológicos de opor alguma resistência podem ser muito elevados. Nestes termos, a aceitação do trote pode ser apenas aparente, uma resignação frente à dificuldade ou impossibilidade de proteger a individualidade. Os calouros que já ousaram opor alguma resistência sabem que os veteranos facilmente ultrapassam a fronteira da brincadeira em direção a uma atitude de gangue delinqüente. É nessas circunstâncias que o trote perde seu véu ideológico de conduta socialmente aceita, negociada. Não é. É imposta, unilateral e autoritária. Há os que defendem a prática do trote do bem contra o trote do mal. Não é por aí. A questão continua sendo de foro íntimo, pois a individualidade é inviolável, a despeito do que outros entendam ser bem ou mal. Obrigar um calouro a prestar serviço social voluntário não é necessariamente menos violento do que forçá-lo a ingerir cachaça, mergulhar na lama ou a pedir dinheiro na rua. Não é dado a ninguém o direito de impor a outro qualquer coisa, nem mesmo um simples corte de cabelo não consentido. Permitir a alguém essa prerrogativa é abrir espaço para a regressão à barbárie. Não estamos falando só pelas eventuais vítimas, mas também pelos veteranos que estão sendo educados nessa cultura. O chefe opressor, o marido violento ou o policial torturador tem em comum a idéia de que tudo podem no exercício de sua vontade unilateral. Portanto, tenham cuidado autoridades públicas, reitores universitários e lideranças estudantis: o trote não é apenas uma brincadeira de crianças. * EDMAR AUGUSTO VIEIRA é gestor governamental