ARTIGO
Sábado, 14 de Abril de 2012, 14h:14
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SEBASTIÃO CARLOS
Cuiabá: que futuro é possível? - II
Ingrata com os que a louvam/loas entoa aos que a desamam/assim se tece a história de uma cidade/entretecida nos aranzéis do sarãzal do tempo. Sem dúvida que a questão do transporte urbano e fundamental para se estabelecer um índice aceitável de qualidade de vida. Mas que tipo de transporte? Quais as suas condições de funcionamento, incluindo-se o custo para o usuário. Como explicitou Owen é necessário criar uma atmosfera na qual o sistema de transporte possa funcionar. Em outras palavras, para que haja eficiência e qualidade não basta colocar os trilhos e os veículos, mas é necessário criar condições para o funcionamento de outros meios de transportes, inclusive os automóveis, os caminhões de carga e os ônibus que levarão os passageiros dos bairros até os terminais dos trens. Neste caso, devemos perguntar, como está sendo visto o uso do espaço urbano no conjunto da capital, e não somente dos lugares onde trafegarão essa modalidade de trens? Daí que, insisto, a construção do estádio num local onde já existe um conglomerado urbano significativo, como é a região do Verdão, foi um erro acumulativo clamoroso. Mais um deles. Ao longo dos séculos o conceito de cidade, embora a terminologia tenha permanecido, modificou, para receber abordagens de diversos continentes disciplinares como a geografia, a sociologia, a história e, mais recentemente, a filosofia. E se o conceito de cidade se modificou ao longo do tempo, o seu fundamento essencial, o de ser aquele local em que buscamos ter uma vida agradável e na qual seja possível viver pacifica e civilizadamente com os nossos mais íntimos e também com os estranhos, parece permear toda a arte e a ciência que a teoria do urbanismo contemporâneo consagrou. A cidade que temos na imaginação como o lugar ideal para se viver e morrer é aquela em que a qualidade de vida atingiu os degraus mais altos, em que a saúde pessoal e a do meio ambiente se tornam fatores essenciais, e na qual se é possível construir uma vida digna e respeitada para nossos familiares e o maior número possível de cidadãos, enfim uma cidade na qual se é possível viver feliz. Esta cidade imagética só pode ser alcançada se ela for a resultante de uma utopia que conquiste espaço em nosso coração e na qual nossa alma está imersa. Dunga Rodrigues, uma das mais sensíveis e autênticas interpretes da alma cuiabana, em seu texto, leve, fluído e bem humorado se inquietava com os rumos que a sua cidade estava tomando. Em julho de 1991, em uma pequena crônica publicada com o título de E agora José? expressava a sua indignação: Depois que nos despojamos de nossas características ancestrais, como a desconfiança do índio, a malícia do negro e conservamos a cabeça dura dos portugueses, temos levado lambada de amargar. E indagava: E, agora, o que aconteceu? E após descrever o que considerava uma afronta e desrespeito a tradicional hospitalidade cuiabana, Dunga admoestava os nativos: E agora será que vamos ficar só cantando o hino do Senhor Divino? Está na hora de raer o forno! Onde estão os cuiabanos, que não agem? Estarão todos dormindo?. Sim, o que estamos fazendo hoje para que a nossa Cuiabá seja a cidade em que pretendemos passar os nossos melhores dias? *SEBASTIÃO CARLOS GOMES DE CARVALHO é advogado, professor e historiador. Membro da Academia Mato-Grossense de Letras. Publicou, entre outros: Cuiabá Corpo e Alma (2 vols.) e Pássaros Sonhadores