ARTIGO
Terça-feira, 01 de Setembro de 2009, 08h:56
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ENOCK CAVALCANTI
Cuiabá está se fechando pra nós
Meus amigos, meus inimigos: moro bem longe do centro de Cuiabá. Sou cuiabano das periferias, que ainda preservam seus quintais, suas mangueiras, os guris pelas ruas, jogando bola e soltando pipa. Claro, há os ladrões, a invasão de domicilio, o sumiço do lixeiro, mas nasci e cresci numa cidade horizontal e não gosto de morar entocado em prédio. Enquanto nossas melhores famílias patrocinam o crescimento vertical da cidade e o faturamento acelerado das construtoras, vou ficando por aqui, nesta parte que me cabe deste latifúndio. Quando morrer, que alguém se lembre de escrever em meu túmulo: "Foi, acima de tudo, um suburbano". Morro longe do centro, longe dos shoppings, longe da Praça Popular. Meu bairro, dia desses, foi cortado pela Avenida das Torres, tive vontade de sentar no meio-fio, chorar meu desespero. Ah, o riacho que corta a minha aldeia está ficando cada dia mais poluído, preto, preto de sujeira. Mas estou longe, também, desta confusão, deste pampeiro em que se transforma a capital quando chegam os finais de semana e esta gente endinheirada sai atrás de diversão, travando o trânsito, multiplicando o calor, provocando a agonia e uma barulheira sem fim nas noites de Cuiabá. Alguém me contou que, na alta madrugada de sexta-feira, passava pela Getúlio Vargas e se viu mergulhado em verdadeiro baile a céu aberto, com carros de sons, panfleteiros, buzinaços, gritaria - e o espaço de circulação atravancado por estes reis da noite. Enfurecida, a cidadã ligou para o 190 da PM atrás de socorro, de providências contra aquele charivari. Ouviu que a PM não se mete mais neste vespeiro desde que o Blairo resolveu acabar com o Batalhão de Transito. "A senhora liga pros amarelinhos", recomendou o meganha. Só que os amarelinhos do Wilson Santos só existem para multar durante o dia, não trabalham quando a noite chega, então quem está na rua de madrugada, no centro festivo de Cuiabá, que se foda, que se submeta a todos os riscos, que se vire como puder. Repetidas reclamações sobre está balbúrdia não são coisa novas. O secretário do Meio Ambiente, Arquimedes Pereira Lima Neto, deve tá cansado de receber moradores, empresários, cuiabanos angustiados com este Afeganistão em que se transforma Cuiabá, sempre que a noite chega, principalmente para quem mora ou transita por pontos nevrálgicos como a Getúlio, a Santos Dumont, a São Sebastião, a Praça do Chopão, a Praça Popular. Arquimedes segue fazendo ouvido de mercador e não há registro de ação decidida da secretaria que comanda em favor do sossego dos cuiabanos. Claro, a noite precisa rolar - mas que exista organização, que se respeite o Código de Postura. Claro - Cuiabá é uma festa, mas do jeito que vai, está virando uma esculhambação só. Fica evidente que alunos e professores do Colégio Estadual vivem um verdadeiro Inferno de Dante, toda sexta, quando os carros de som vão pra Getúlio, fazer seus bailes. Será preciso que alguém morra em meio ao trânsito travado da Praça Popular para que o prefeito Wilson e o secretário Arquimedes acordem?! Será preciso que algum panfleteiro seja atropelado na Getúlio por um motorista ensandecido numa madrugada louca para que se perceba que Cuiabá não pode ficar sem Batalhão de Trânsito nas suas cada vez mais movimentadas noites e madrugadas?! Confesso que, nas noites suburbanas, em minha choupana, penso pouco nisso. Aqui no Universitário, a noite ainda rola sob decibéis aceitáveis. Então, na cama, fico pensando se a garota com que transo me ama e quanto. E fico também imaginando onde andará o cantor e compositor Belchior, porta-voz tão querido de meu ceticismo e de meu tédio: "Viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa/ Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa/ Por isso, cuidado, meu bem, há perigo na esquina/ Eles venceram e o sinal está fechado pra nós..." * ENOCK CAVALCANTI, jornalista, é titular do blog www.paginadoe.com.br