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Cuiabá MT, Segunda-feira, 08 de Junho de 2026

ARTIGO
Segunda-feira, 08 de Junho de 2026, 11h:36

MARTHA BAPTISTA

Cuiabá – Cidade Verde?

Caminhar pelas ruas de uma cidade muda totalmente a nossa perspectiva

Há pouco mais de cinco anos, adotei Juca, um cão SRD, sem raça definida, mas com energia de sobra.

Essa decisão, meio intempestiva e nada racional, acabou mudando minha vida em muitos aspectos.

Graças à convivência com Juca, comecei a percorrer diariamente as ruas do meu bairro (Popular, em Cuiabá) e adjacências.

E isso mudou totalmente a minha relação com a cidade onde moro desde 2003.

Embora tenha nascido em Corumbá (MS), fui criada no Rio de Janeiro e habituada a caminhar.

Na minha infância e adolescência, ia e voltava da escola e outros compromissos a pé, na maioria das vezes.

Eu me lembro especialmente da época em que caminhava pela belíssima Rua Paissandu, no Flamengo, retornando do Colégio Santa Úrsula e das aulas na Cultura Inglesa.

Em geral, caminhava com amigos que moravam perto de mim.

Quando me mudei para Cuiabá, logo percebi que caminhar na capital mato-grossense não era tão habitual, nem gostoso, por conta do calor, das calçadas irregulares e sujas, e da ausência de outros caminhantes.

Quem caminha gosta de ter companhia.

Juca me devolveu a necessidade de caminhar, ainda que essa “obrigação” seja desconfortável em alguns momentos, sobretudo, no período da seca (entre agosto e outubro), quando sempre “decido” que preciso ir embora de Cuiabá.

Procuro sair com ele cedo (embora não goste de madrugar) e no final da tarde, antes de escurecer.

Seria ótimo passear à noite, mas aí enfrentamos outros riscos, como quedas por conta das calçadas com obstáculos, outros cachorros (nem sempre amistosos) e andarilhos (em geral, Juca não deixa que se aproximem).

Caminhar pelas ruas de uma cidade muda totalmente a nossa perspectiva.

Infelizmente, as árvores de Cuiabá seguem sendo destruídas pela iniciativa privada e pelo próprio governo municipal, que insiste em acabar com a fama da outrora Cidade Verde

E até nisso, Cuiabá é uma cidade muito desigual.

Quem caminha pelas ruas da capital de livre e espontânea vontade?

Só quem não tem carro ou outro meio de transporte.

Por acaso, você já viu algum político ou alguém em cargo público caminhando pelas ruas (sem ser em véspera de eleição e cercado de seguranças e aspones)?

Prefeitos, vereadores e outros seres que supostamente administram nossa cidade não andam de transporte público, nem caminham pelas ruas, tropeçando nas armadilhas das calçadas estragadas, desviando dos buracos ou caindo nos bueiros sem tampa.

Eles também não sentem na pele a falta de arborização nas ruas e praças públicas.

Não lamentam a poda parcial ou radical de árvores, que outrora forneciam algum conforto aos pedestres.

Nas minhas caminhadas diárias assisti ao assassinato de muitas árvores. Sofri pela mangueira derrubada na Praça Manoel Miráglia (no início da Avenida das Flores) e cheguei a denunciar esse crime ambiental nas minhas redes sociais. Até recebi à época uma resposta da assessoria da Prefeitura (sob o comando de Emanuel Pinheiro) dizendo que a mangueira estava doente. Ora bolas! Cadê o laudo? Por que a administração municipal (leia-se Limpurb) espera as árvores adoecerem para derrubá-las? Por que não tratá-las? Por que não plantar algo no lugar?

Ainda na administração de Emanuel Pinheiro, reformaram a Praça Santos Dumont, uma das mais tradicionais da cidade.

Quanto não se gastou nessa reforma, com direito a chafariz e canteiros reformados (com granito e pintura de temas regionais)?

A reforma foi “concluída” a tempo de o ex-prefeito entregar a obra antes de deixar a Prefeitura, no início de 2025, quando passou o cargo ao atual prefeito que parece ter total desprezo por árvores e meio ambiente.

O chafariz raramente funciona e o que é mais grave: várias árvores frondosas foram derrubadas na praça, que ficou totalmente desprotegida do sol inclemente de Cuiabá.

Juca e eu frequentamos a Praça Santo Dumont quase diariamente e fiz várias postagens denunciando essa situação.

Para mim, o maior exemplo desse crime ambiental – com desperdício do nosso dinheiro – é o canteiro que ilustra este texto.

Situado em frente à Igreja Mãe dos Homens, esse canteiro é um monumento ao desrespeito e ao descaso de quem deveria zelar por Cuiabá.

A árvore que ali vivia foi derrubada logo após a reinauguração da praça.

Quem derrubou destruiu o novo canteiro e ficou por isso mesmo.

Juca e eu tínhamos amizade com dona Francisca, que vendia salgados e café no local, e ela me garantiu que a árvore não tinha problemas.

Dona Francisca se mudou algum tempo depois e não viu a sua praça sendo cada vez mais descaracterizada, perdendo árvores, sombra e a beleza que a tornavam tão especial.

Infelizmente, as árvores de Cuiabá seguem sendo destruídas pela iniciativa privada e pelo próprio governo municipal, que insiste em acabar com a fama da outrora Cidade Verde.

Será que algum dia mais pessoas acordarão para a importância das árvores?

A propósito, a placa que identificava o busto de Santos Dumont foi totalmente destruída.

MARTHA BAPTISTA é jornalista, escritora e tutora de Juca.


Edição edição 16957




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