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ARTIGO
Segunda-feira, 27 de Junho de 2011, 21h:24

ROBERTO NICOLSKY

Comércio Exterior e Esvaziamento Tecnológico

A competência tecnológica relativa de uma economia é avaliada principalmente pela qualidade do seu comércio exterior, ou seja, pelo seu desempenho nas relações com outras economias mais ou menos competitivas segundo a intensidade de tecnologia contida nos produtos. Esse critério foi estabelecido pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com base na distinção de níveis de intensidade tecnológica. Alta intensidade tecnológica corresponde ao segmento de produtos com elevada agregação de valor pela incorporação de inovações tecnológicas; média-alta intensidade tecnológica refere-se ao segmento dos produtos que, embora tenham valor agregado expressivo, alcançam índices inferiores; média-baixa reúne produtos bem mais simples, com pouca elaboração; baixa intensidade tecnológica designa produtos em que a inovação tecnológica incorporada tem pouca relevância; e os não industriais referem-se a produtos in natura (minérios, produtos agrícolas etc.). Assim, o perfil do comércio exterior torna-se um indicador muito expressivo da competência tecnológica relativa de uma economia em incorporar valor a seus produtos e processos através da geração de inovações. Com base nesses conceitos, vê-se que o desempenho da economia brasileira não está sendo nada positivo nos últimos anos. Por um lado, temos tido um crescimento da produção industrial acompanhando parcialmente a expansão quase explosiva do mercado interno. Por outro lado, vemos que a nossa competitividade em relação a alguns países emergentes tem enfraquecido, resultando que esses países, especialmente a China, têm aproveitado muito mais a expansão do nosso PIB e mercado interno. Essa conclusão é evidente diante do comportamento das exportações frente às importações. Considerando o primeiro trimestre de cada ano entre 2006 e 2011, observamos que, no segmento de média-alta intensidade tecnológica, que abrange as indústrias química, de equipamentos mecânicos e elétricos e de veículos rodoviários e ferroviários, fornecedoras de outras indústrias e, portanto, estratégicas para o desenvolvimento, a exportação brasileira cresceu 25%, alcançando US$ 9,1 bilhões, o que poderia indicar um bom desempenho. Entretanto, a importação explodiu, apresentando crescimento de 173%. O resultado do balanço (exportação menos importação), que era praticamente equilibrado em 2006, tornou-se altamente deficitário, com saldo negativo de US$ 9,9 bilhões neste último trimestre. Nos produtos de alta intensidade tecnológica – aviões, medicamentos, informática, telecomunicação e equipamentos médicos – as exportações do primeiro trimestre de 2011 totalizaram US$ 1,9 bilhão, amargando uma queda de 11%, enquanto as importações cresceram 86%, gerando um déficit de US$ 6,9 bilhões. De que maneira o comércio exterior brasileiro compensou esses déficits? Exportando produtos industrializados de baixo conteúdo tecnológico – ou seja, primários – e, principalmente, colocando no mercado internacional um volume maciço de produtos não industriais, mais conhecidos como commodities. O perigo para nossa economia é que essas commodities têm preços formados no mercado internacional. Espera-se que haja uma ação governamental para mudar a tendência em curso e que a indústria manifeste sua insatisfação, expondo a gravidade do problema e apontando possíveis caminhos. *ROBERTO NICOLSKY é diretor geral da Sociedade Brasileira Pró-inovação Tecnológica (Protec)

Edição EDIÇÃO 16967




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