ARTIGO
Terça-feira, 04 de Novembro de 2008, 20h:56
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ALINE CHAGAS
Com saudades!
Era uma vez um homem que acreditava que a arte e a educação poderiam mudar o mundo. Acreditava que através da prosa e da poesia centenas de crianças e adolescentes de uma cidade pequena no interior de Mato Grosso poderiam chegar a lugares nunca alcançados. Poderiam transpor as barreiras impostas pela realidade social, econômica e logística. Ele encheu o dia-a-dia dessas crianças de esperança. E deu a muitas delas um futuro melhor. Eu falo de Donizete Tavares Coelho, professor de português da maioria das escolas do município de Araputanga, distante cerca de 360 quilômetros de Cuiabá. De todos os professores que tive, é dele que me recordo com mais detalhes. Lembro-me com tamanha nitidez de suas aulas e de suas broncas, que fico impressionada. Algumas vezes parece que acabei de sair da sala de aula. Donizete era uma pessoa cujo nome deveria constar em enciclopédias, em ruas, em escolas públicas e bibliotecas, porque nunca deixou de acreditar. Falta de verbas, falta de apoio, falta de espaço: nada era motivo para um projeto parar. Sem pensar nos limites, ele conseguiu publicar poesias de dezenas de seus alunos. Com isso, uma boa parte dessas crianças e adolescentes percebeu que a vida pode ser muito mais do que imaginamos se houver um pouco de vontade. Ele também acreditou em mim. Ensinou-me a escrever e ler direito. Ensinou-me a rimar as palavras. Ensinou-me que as palavras, juntas em um texto jornalístico, podem mudar o mundo e ajudar milhares de pessoas. Eu sequer entendia a dimensão do fazer jornalismo. Mesmo assim, no dia-a-dia das aulas, ele viu o meu potencial e me preparou para ser uma ótima profissional. Você tem o dom, pode sonhar. Estude com perseverança e dedicação, que poderá tornar esse sonho em realidade. Com essas palavras ele me ajudou a tomar uma das decisões mais acertadas e difíceis da minha vida. Ele me ajudou a enxergar que eu poderia viver de escrever. Que poderia viver todos os dias com o que eu mais gostava de fazer, quando nem eu achava que seria possível. Há duas semanas o mundo o perdeu. Há duas semanas, Araputanga perdeu talvez a pessoa que mais brigou pela educação das crianças e adolescentes do município. Tamanha foi a perda, que a cidade parou para se despedir dele. Um dia, esse professor inacreditável me falou que tinha muito orgulho da profissional que eu tinha me tornado. Na verdade, meu caro professor, saiba que sou eu quem tem muito orgulho de ter aprendido a viver, sonhar e transpor limites com o senhor. Com saudades! ALINE CHAGAS é jornalista