ARTIGO
Segunda-feira, 07 de Fevereiro de 2011, 20h:56
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LORENZO FALCÃO
Cisne Negro
A bailarina sofre. Diante do telão assisto o filme e sinto uma necessidade premente de falar, de conversar com alguém. Pareço fazer parte da história. Não um ator, apenas um observador à distância que quer fazer um comentário. Falar durante uma sessão de cinema não é de bom tom. Mas não resisto. Falo. Sussurro algo desnecessário, mas que precisava ser colocado pra fora. E a bailarina sofre. Tem dois papéis, quase que opostos, num grande espetáculo de dança embalado pela genial música de Tchaikovsky, O Lago dos Cisnes. Cisne Negro, de Darren Aronofsky (O Lutador, e Réquiem para um Sonho) expõe cruamente os bastidores da montagem de um espetáculo dessa envergadura. Contou com o talento, a inspiração e a performance profissionalíssima da bela Natalie Portman (V de Vingança, Beijo Roubado e O Profissional) que, do alto dos seus trinta anos, tem se mostrado uma das melhores artistas do cinema no mundo. E estão dizendo que ela leva o Oscar deste ano, na categoria atriz. Não duvido nada em relação à estatueta. Quem assiste Cisne Negro sai do cinema com a impressão de que é difícil superar a incorporação que Natalie deu a Nina, uma bailarina cheia de problemas pessoais, mas com uma perfeição de movimentos inquestionável. Ela só precisaria se deixar levar para conquistar a chance de representar os dois papéis a que concorre no espetáculo: o do cisne branco e o do cisne negro. A ralação que é ser uma bailarina de ponta, normalmente, não é coisa conhecida pelos simples mortais. Isso fica claro em Cisne Negro. A forma como a personagem do cisne negro vai se apoderando de Nina é a cereja do bolo neste filme. De uma discreta alergia em suas costas, parece que vão surgir penas negras. Do espaço entre os dedos de seus pés surgem membranas obedecendo a compleição dos membros inferiores das aves aquáticas. Assisti ao filme na última sexta e até agora as imagens estão retumbantes em minha cabeça. Pobre coitada essa cabeça minha que, às vezes, se esquece que ainda estou vivo e ainda enfrentarei experiências avassaladoras como a de assistir a um filme deste porte. Eu tinha o cineasta Darren Aronofsky, ainda, como um artista promissor. Agora já o considero um esteta da sétima arte. Em relação a Natalie Portman, a única ressalva que tenho para com ela, é o fato de ela não me conhecer. Talvez por isso, seja noiva do coreógrafo francês Benjamin Millepied. LORENZO FALCÃO é editor do Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras