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ARTIGO
Quarta-feira, 20 de Junho de 2012, 21h:52

MARCOS MORAES

Cigarro e sustentabilidade

A conferência sobre desenvolvimento sustentável da ONU, a Rio +20, está no centro das atenções, e as empresas estão de olho nela. Todos querem ser sustentáveis, inclusive o cigarro, que mesmo com malefícios amplamente comprovados, está dando o seu jeito. Valendo-se de algumas práticas de economia de água e recolhimento de resíduos, as empresas de tabaco correm pelas beiradas, explorando cada iniciativa em relatórios de sustentabilidade e prêmios concedidos pela imprensa e por organizações não-governamentais. Mas como premiar empresas cujos produtos são altamente tóxicos, causam dependência e só no século passado exterminaram 100 milhões de pessoas? Além disso, são cerca de 1,2 bilhão de fumantes no planeta consumindo milhões de cigarros todos os dias e jogando gases tóxicos, como monóxido de carbono, nos ambientes internos e na atmosfera. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), morrem cerca de 600 mil não fumantes no mundo devido ao tabagismo passivo. E o que dizer das bilhões de guimbas de cigarros que são descartados diariamente? O acúmulo de filtros de cigarros polui rios e entope bueiros. A ponta do cigarro é o item mais coletado nas praias em todo o mundo, e corresponde entre 25% a 50% de todo lixo coletado em ruas e rodovias, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca). Será que todos sabem que as folhas de tabaco usadas na fabricação de cigarros passam por um processo de secagem em estufas alimentadas a lenha? No Brasil, só entre 1990 e 1998, a produção de fumo consumiu 300 milhões de árvores. Não por acaso, a Advocacia-Geral da União do Rio Grande do Sul promoveu, no ano passado, a assinatura de termos de compromissos entre o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e o Sindicato da Indústria do Tabaco (Sinditabaco) para criar um sistema de monitoramento de áreas utilizadas para plantação de fumo e recuperar terras devastadas por essa atividade. No portfólio de insustentabilidade dessas companhias, a maioria transnacional, constam ainda práticas nada éticas na sua relação com cerca de 200 mil famílias de pequenos agricultores inseridos na cadeia produtiva de fumo no Brasil. A indústria usa a capacitação e a parceria que oferecem a esses fumicultores para os tornar reféns de seus subsídios e tecnologia e os usar como mão-de-obra barata sem direitos trabalhistas. Está bem documentado o ciclo vicioso de dívidas que retém esses produtores na atividade, o trabalho penoso na lavoura de fumo, o trabalho infantil e doenças ocupacionais graves que os acometem. É evidente a contradição entre o negócio tabaco e desenvolvimento sustentável, expressão formalizada pela primeira vez no Relatório Brudtland das Nações Unidas, durante a Rio ECO 92. A doutora Gro Brudtland, responsável pelo relatório que leva seu nome, foi a mesma que viabilizou, enquanto diretora da OMS, a negociação da Convenção Quadro para Controle do Tabaco, tratado internacional para regular as práticas da indústria do tabaco, reconhecida como o vetor da epidemia de tabagismo e das milhões de mortes anuais resultantes. Ratificada pelo Brasil e por mais 173 signatários, essa Convenção, embora tenha feito a diferença em vários países, ainda não conseguiu deter o poder expansionista das empresas transnacionais de tabaco, cujos esforços concentram-se em países mais pobres. Há menos de um ano, chefes de Estado, inclusive a presidente Dilma se reuniram na ONU para pactuar estratégias globais para deter o crescimento das doenças crônicas não-transmissíveis que ameaçam o alcance dos Objetivos para o Desenvolvimento do Milênio. No Brasil, a união de esforços entre governo e sociedade civil tem sido frutífera para enfrentar o lobby das fumageiras, reduzir o tabagismo e suas consequências de forma expressiva. Mas ainda são tímidas as iniciativas para resgatar os pequenos agricultores dos grilhões da dependência econômica da cadeia produtiva do fumo. É fundamental que a sociedade entenda que produção e consumo de produtos de tabaco não combinam com sustentabilidade. *MARCOS MORAES - Presidente do Conselho de Curadores da Fundação do Câncer e da Academia Nacional de Medicina

Edição EDIÇÃO 16961




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