Após as eleições municipais aqui tão acirradas, os vitoriosos e os derrotados devem voltar os seus olhos para as questões que estão a nos atropelar. Os vitoriosos porque é onde as esperanças foram depositadas para resolver grande parte dos problemas. Os derrotados porque a maioria vem de câmaras legislativas de onde devem ser encaminhadas ou acatadas leis para a solução dos problemas. Alguns outros são prefeitos que buscaram a reeleição e derrotados foram por não apresentarem soluções para os problemas citadinos. Os problemas são tantos, mas todos começam com a educação. O diagnóstico de porque as crianças não estão minimamente alfabetizadas até os oito anos preocupa a presidente Dilma. O desafio do prefeito eleito é detectar porque a alfabetização não se dá até essa idade, o que segundo a presidente, desencadeia um processo de exclusão desses cidadãos no futuro. É aterrorizante deixar esses brasileirinhos sem a capacidade de ler e escrever. Impossível não concordar com a presidente. A tarefa não é fácil, pois a garota Isadora Faber, que resolveu mostrar as mazelas físicas da sua escola e a imperícia de um professor nas redes sociais, obteve uma resposta irada e, segundo seguidores de sua página, até B.O contra ela foi feito. Isso prova que os direitos dos cidadãos do país ainda são quase nada reconhecidos. Se não lhe dão voz agora, é com a esperança de que ela seja uma cidadã calada, tímida, sem exercer os seus direitos de cidadania. Sobre a questão da cidadania vê-se no cotidiano e viu-se na campanha candidatos falarem dos cidadãos humildes, cidadãos mais humildes. Para o bem da cidade, estado e da nação é bom que a sociedade e os contendores da eleição passada reformulem os seus conceitos de cidadania. Não existe cidadão humilde. Cidadão é cidadão e, presume-se, com os mesmíssimos direitos e deveres de todos os outros habitantes do país. O que se depreende é que quando a sociedade fala em cidadão humilde, é porque não quer reconhecer-lhe os seus direitos. E aí para essa mesma sociedade esse cidadão é humilhável. Perfeitamente aceitável. Vide a invasão que a polícia de São Paulo está fazendo nas favelas. O estado incapaz de sequer manter a incomunicabilidade de um preso, que faz da cadeia o seu escritório, o seu QG vai e arrasa as favelas porque de lá é que saiu o bandido, se é que foi de lá mesmo. Impensável a mesma atitude num Morumbi e bairros do mesmo quilate. Lá vivem os cidadãos de bem. Lá vivem os cidadãos de bens. Na favela, nem o choro de uma mãe que teve o filho abatido por ter sido confundido com bandido comove tanto. Não dá manchete nos jornais. Ele foi abatido porque tem aparência de cidadão humilhável e também abatível. Os estratos sociais, no Brasil, são perfeitamente diferenciados etnicamente. Triste. Muito triste. O livro Rota 66 do jornalista Caco Barcelos bem retrata essa realidade brasileira. Sobre isso aqui vai excertos de uma pesquisa realizada pela SEPPIR: "Em 2009, foram registradas cerca de 19 mil mortes de jovens negros em contraposição a 9 mil mortes de jovens brancos... Os números se revelam por si só, mas o que incomodava era o silêncio da sociedade diante desse quadro... Percentual semelhante (56,0%) foi registrado para os que concordaram com a afirmação de que a morte violenta de um jovem negro choca menos a sociedade do que a morte violenta de um jovem branco". Sejam bem-vindos senhores prefeitos e senhores vereadores eleitos, ao árduo, prazeroso e revolucionário trabalho de transformação, para melhor, dessas realidades. *ELESBÃO MORENO DA FONSECA - engenheiro civil e músico
[email protected]