ARTIGO
Segunda-feira, 14 de Maio de 2012, 21h:26
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LORENZO FALCÃO
Cerimônias de Dicke
Mais uma batalha literária vencida. Outro tijolo da lavra de Ricardo Dicke que termino de ler. Estava envolvido com Cerimônias do Sertão (Carlini e Caniato Editorial-2011) desde setembro do ano passado. Antes de vencer suas 445 páginas, sabe Deus porque, precisei interromper o fluxo da leitura algumas vezes e, nessas pausas, inclusive, cheguei a ler livros menos volumosos, embora interessantes, de Kasuo Ishiguro e Marcelo Mirisola. É curioso como esta obra do escritor chapadense muito se assemelha a Cerimônias do Esquecimento (Editora da UFMT-1995), outro livro do próprio. Há personagens e situações idênticas e acho que até alguns trechos são uma coisa só. Um deriva do outro, ou vice-versa, e não tem mais como saber, já que Dicke se mandou deste mundo há quase quatro anos. Minha impressão é que Cerimônias do Esquecimento vem depois de Cerimônias do Sertão que, apesar de ter sido editado ano passado, foi escrito nos anos 70. Em todo caso, os dois livros expõem a saga de personagens conectados que se encontram em alguma passagem da narrativa, nem que seja na memória do narrador. Numa ambiência rural, o que caracteriza quase toda obra de Dicke, personagens aparentemente improváveis para este mundo urbano e moderno desfilam. Porém, quem conhece essas corruptelas da Baixada Cuiabana, sabe muito bem que nesses locais cabe gente desse tipo. Só cabe. São lugares onde o tempo parou e que têm a maior parte de sua população entranhada na zona rural. Neste Cerimônias, um professor de filosofia se vê num exílio forçado no município da Guia, já que as pontes que ligam a pequena cidade a Cuiabá caíram por conta de uma chuvarada infernal. É lá que a história vai florescendo na cabeça de Frutuoso Celidônio, personagem central que, claro, tem uma pegada autobiográfica. Dicke era formado em Filosofia e chegou a dar aulas na UFMT, se não me falha a memória. Cipriano do Pau dos Machados, Rosaura do Espírito Santo, Catrumano, João Ferragem, Leonora (a de beleza suprema), João Quatruz, João Valadar e muitos outros seguem compondo um enredo que flerta com algo próximo a um realismo mágico, mas que se caracteriza muito mais pelos questionamentos filosóficos. Questionamentos, aliás, presentes em toda a obra de Ricardo. Filosóficos e/ou metafísicos. Ricardo Dicke é um dos autores que tem marcado minha formação. Sou conhecedor da sua obra, quase toda, e acuso minha preferência pelos seus tijolos. Adoro seus longos escritos de 400 ou 500 páginas que nos gastam as retinas e provocam nossas memórias. É porque sua ficção mais longa permite um envolvimento maior e mais verdadeiro com a densidade literária do autor e seu estilo torrencial de escrever. Sei bem da dificuldade para ler este autor, um grande erudito, que não faz concessões em sua literatura. Quanto mais conhecimento tivermos, especialmente no terreno das artes, mais saborosa, agradável e enriquecedora será a leitura de um livro de Dicke. LORENZO FALCÃO é editor do caderno Ilustrado do Diário tyrannusmelancholicus.blogspot.com