ARTIGO
Terça-feira, 17 de Abril de 2012, 21h:11
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*ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ
Censuras do agora
Depois de tratar de prisões virtuais nos três últimos artigos, volto a falar da Universidade brasileira; mais especificamente das censuras vigentes. Claro que isso não é de agora. Depois da ditadura militar de 1964, acreditou-se ter recuperado um espaço da democracia plena, principalmente na academia. Engano! Se durante a atuação dos golpistas de 64 era possível desconfiar ou mesmo identificar com mais facilidade seus agentes, hoje não existe a mesma facilidade. Tais sujeitos não são vistos como censores. Pelo simples fato de não mais estar em moda o mandonismo de militares, muitos creem no desaparecimento da censura. Muitos não se dão conta de que a censura pode não ser apenas a convencional. Como assim? Simples! A Universidade brasileira, com destaque às públicas, passa por pelo menos quatro tipos de interferências estranhas à sua dinâmica: 1º) a político/partidária; 2º) a religiosa; 3º) a jurídica; 4º) a militar. Antes, registro que essa enumeração não significa um ranking, embora a interferência político-partidária tenha ganhado na última década certo ar de onipresença. Assim, conforme o momento e o lugar, um desses tipos pode sobressair sobre os demais. Agora, todos podem surgir a qualquer momento, alhures; e simultaneamente. Tudo depende apenas da ocasião. Por parte! Nunca como antes na história deste país o ParTido político da ordem (e progresso!?!) teve tanta força; nunca um partido mandou tanto na Universidade. Pior: seu mandonismo chegou quando esse partido já havia queimado suas raízes. Hoje, uma legião de colegas ex-amigos e ex-companheiros que tanto clamavam por democracia é agente de seu apagamento. Um contingente está no (micro) poder. O outro, sem capacidade para grandes reflexões, ajuda o contingente acima a tocar os projetos, os programas e as práticas ordenadas pelos agentes do macro poder nacional, embora todos submetidos a interesses internacionais, contra os quais tanto bravataram um dia. Logo, ao mesmo tempo são vassalos e censores. Quem diria? Que paradoxo! Já a interferência religiosa, em geral, capitaneada por criaturas neopentecostais, sustenta-se na dinâmica flex da pós-modernidade (do politicamente correto), fazendo calar ou enfraquecer discursos mais críticos. Hoje, cada palavra tem de ser medida. Por isso, muitas ideais são caladas, engolidas. Particularmente, já fui vítima desse tipo de censura, em geral, escondida no anonimato. Por sua vez, a interferência jurídica (judicialização das relações) tem ganhado terreno impressionante. Internamente, as procuradorias jurídicas das universidades não acham mais tempo para análise de tantos processos. Há de tudo, mas nada que engrandeça a academia; pelo contrário. A ameaça de enquadramentos jurídicos também diminuiu a coragem e a honestidade entre pares. Particularmente, também já fui vítima disso. E agora, ainda nesse campo, começam a surgir pressões externas. Um mestre de Geografia da UFPA está sendo processado por uma família tradicional da Ilha do Marajó por ter sido analisada criticamente em dissertação acadêmica. A família (sempre tradicional!!!) sentiu-se moralmente agredida pela análise. Tudo porque o pesquisador estudou o comportamento social desse mandonismo familiar naquela ilha. Por fim, mas não por último necessariamente, a velha e conhecida interferência militar. Bem, desta há pouco que acrescentar. Até imagens de telejornais falam por si. A USP recentemente foi a visibilidade da vez. E se não houver grandes mudanças, não será a última, infelizmente. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP e prof. De Literatura/UFMT