ARTIGO
Domingo, 23 de Agosto de 2009, 01h:20
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SELVINO HECK
Caravana Brasil: pedagogia
Chego em Plácido de Castro, Acre, fronteira do Brasil com a Bolívia: Encontro estadual da Rede Talher de Educação Cidadã, 50 participantes, mais de dezena abaixo de 20 anos. Minha tarefa é fazer a análise de conjuntura, preparatória aos debates sobre os movimentos sociais do Acre, os processos de formação com indígenas, ribeirinhos, famílias do Bolsa Família e pessoas socialmente vulneráveis. Preparei textos e artigos de jornal como subsídio para a reflexão. Um deles, Aprendendo com o Brasil, de Imanuel Wallerstein, fala sobre a crise econômica e as tarefas da esquerda mundial. Peço para lerem um parágrafo, quando me dá um estalo. Será que esta juventude sabe o que é esquerda e direita? Será que alguma vez ouviram falar disto? Pergunto o que é ser de esquerda ou de direita. Silêncio. Pergunto de novo. Alguns, com algum grau de militância social, arriscam respostas, todas parciais. Não posso supor todos saberem o que é esquerda ou direita. Na escola ou grupos de jovens de igreja, essa não é uma informação corriqueira. Explico a origem dos termos na Revolução Francesa, quando os membros do Terceiro Estado, a plebe ou o povo, progressistas, sentavam à esquerda do Rei, nobreza e clero, conservadores, à direita, de onde surgiu a conotação política dos termos, consolidada historicamente. Passo à análise de conjuntura. O que é conjuntura? Distingo-a da palavra estrutura. Pergunto o que seria a conjuntura de uma casa e o que seria a estrutura. A partir de exemplos práticos e da vivência dos jovens presentes, o grupo entende o que significa o palavrão da pauta do Encontro, e faz comigo a tal análise de conjuntura. Sigo a Porto Velho, Encontro da Rede TALHER de Educação Cidadã de Rondônia, 50 participantes. Um grupo de trabalho analisa a ação com os ribeirinhos, ameaçados de transferência por causa da construção das hidrelétricas do rio Madeira, obras do PAC do governo federal. Jorjão, militante antigo, diz: É preciso um cuidado todo especial para chegar nos ribeirinhos. Eles têm uma cultura toda particular. Moram juntos, uma pequena comunidade, onde todo mundo se conhece.Têm pouco contato com a cultura da cidade. Todo mundo ajuda todo mundo. Um precisa de sal ou açúcar, vai pedir no vizinho e devolve no outro dia. Vivem do que pescam todos os dias, vendendo parte aos comerciantes locais, que o revendem para gente da capital. Se forem assentados na periferia da cidade, não saberão como fazer e como sobreviver. Não estão acostumados. No meio deles têm alguns comerciantes. A hidrelétrica busca aproximar-se do comerciantes, que sobrevivem da compra e venda de peixes e lhes oferece uma indenização de mais de cem mil reais. Os comerciantes tendem a aceitar porque é um bom dinheiro e porque conseguirão se instalar em outro lugar sem maiores problemas. Para os ribeirinhos será um forte choque cultural. É preciso compreender as diferenças culturais e partir delas se quisermos chegar na alma do povo e ajudá-lo a se organizar para reivindicar seus direitos e torná-lo cidadão ativo e participante. Os dois relatos revelam que é preciso partir do saber e do não saber das pessoas, de sua realidade e vivência cotidiana. O diálogo aberto e franco é indispensável. Ninguém sabe tudo como ninguém é tão inepto que não sabe nada. A educação popular espelhada em Paulo freire segue viva Brasil afora. Milhares de educadores/as populares permanecem, na fronteira do Acre com a Bolívia, na beira do rio Madeira, fazendo trabalho de base junto do povo, construindo organizações, cidadania e direitos. O trabalho é lento, mas rico de consciência. A consciência política existente no Brasil é cheia de exemplos encharcados de vida, de práticas de um povo lascado economicamente, mas pleno de sabedoria e vontade de aprender e buscar seus direitos. O povo pobre e trabalhador sempre acha caminhos de sobrevivência e formas de ser protagonista na construção de um Brasil justo e solidário. * SELVINO HECK, assessor especial do Gabinete do Presidente da República