Somos mesmo o país de onde se fala uma coisa e se faz outra. Exemplo disso é a mudança que os senadores fizeram no piso salarial nacional dos professores da educação básica da rede pública. Um nome grande e pomposo para pouco mais de dois salários mínimos. Eles aprovaram o reajuste à variação do valor que cada aluno recebe do governo federal e não pode ser inferior à inflação. Coerente o projeto. Pois bem. O Governo Federal, em seu projeto, não quer aumento real (tirando a inflação). O argumento do governo foi que o critério atual (parcialmente mantido pelo Senado) pode acarretar uma elevação contínua dos salários dos professores e prejudicar o financiamento de outros itens importantes para a melhoria da educação básica pública, como manutenção e melhoria das instalações físicas das escolas, aquisição de material de ensino, universalização do uso da informática e o próprio aperfeiçoamento profissional dos professores. Meu Deus do céu, o Governo Federal que anunciou aos quatro cantos do país que o foco será os professores - vão finalmente valorizar os amados mestres -, coloca no texto que a proposta pode elevar os salários dos professores a cada ano. Como entender isso? O próprio Governo Federal já está cansado de saber que um dos pilares para acabar com um problema de 500 anos de abandono do ensino público é dar um salário digno aos professores, veta o reajuste salarial. A proposta é um exemplo claro de uma estratégia de economizar munição numa guerra que está apenas começando. Ou está brincando com o povo brasileiro fingindo que quer investir no ponto mais frágil da atual economia brasileira. A proposta indecorosa do reajuste do piso salarial está no papel. Está na mão dos senadores e dos deputados federais. O texto vai correr - ou já correu - o mundo mostrando que os nossos governantes estão brincando de fazer educação. Se o Governo Federal quer mesmo valorizar os professores, tem que mudar a proposta, e anunciar um plano de salário digno. Qualquer pesquisa feita hoje para saber quem é o principal problema que envolve o ensino público, a remuneração dos docentes está no topo da lista. O Governo sabe, mas na prática faz diferente. Se não mudar essa idéia o Brasil está caminhando diretamente para o buraco. Quando perceber, já caiu na ribanceira. Aí, será tarde demais. ADILSON ROSA é repórter