ARTIGO
Segunda-feira, 26 de Maio de 2008, 21h:07
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JULIANA GIRARDELLI VILELA
Bric: a hora e a vez do Brasil
O termo BRIC é um acrônimo cunhado por Jim O'Neill, diretor de pesquisas econômicas do banco Goldman Sachs, para designar os quatro principais países emergentes do mundo, a saber: Brasil, Rússia, Índia e China. De acordo com seus estudos, baseados em estimativas de evolução dos mercados, da produção e da demografia, até 2050 o grupo possuirá mais de 40% da população mundial e um PIB conjunto superior a 85 trilhões de dólares, não obstante os diferentes desafios políticos, sociais e econômicos de cada um deles. Nesse sentido, a China deverá aumentar o papel do consumidor e reduzir os gastos com investimentos estatais. Essas medidas são importantes para que possa sustentar seu crescimento acelerado que há mais de 25 anos proporciona uma média anual de 9% de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) e que nos últimos anos possibilitou a retirada de 200 a 300 milhões de camponeses de uma miséria abjeta, transformando-os em operários. Ocorre que a China exerce hoje um papel deflacionista extremamente importante na economia mundial. Assim como a Inglaterra no século 19 ofereceu mercadorias baratas a todo o mundo, a China desempenha hoje esse papel, permitindo que mesmo os trabalhadores desempregados pela própria concorrência chinesa nos mercados de manufaturados da Europa e dos Estados Unidos da América (EUA) continuem a consumir produtos, a partir de suas bonificações. A Índia, por sua vez, precisa investir em infra-estrutura, ampliar seu comércio internacional e diminuir a burocracia e corrupção. É fato, contudo, que no início dos anos 90, o país submeteu-se a uma onda de reformas liberalizantes e hoje possui uma taxa de crescimento anual de 7%. Isso porque, em razão de seus investimentos na profissionalização de sua população, o país ocupou espaço no setor de serviços de informática e hoje começa a ganhar terreno também em setores industriais. Em relação à Rússia, há necessidade de investir em fontes alternativas de combustível a fim de diminuir sua dependência em relação ao petróleo. Porém, é importante como fornecedora de matéria-prima e de produtora agropecuária, o que se revela bastante estratégico, na medida em que lhe possibilitará abastecer a grande população que envolve China e Índia. Já o Brasil será primordial no grupo devido ao seu papel de grande exportador agropecuário e a cana-de-açúcar e a soja produzidas no país serão fundamentais na produção de combustíveis como o etanol e o biodiesel. Tudo isso coloca o país em uma posição bastante confortável, pois o qualifica como fornecedor de alimentos, matéria-prima e energia que China e Índia necessitam. A China, por exemplo, passa pelo chamado crescimento brown field, onde há tudo por fazer e construir no país. O Brasil experimenta a fase do crescimento green field, em que o país já conta com infra-estrutura, com uma população urbana e com uma classe média existente, por isso não é provável que o país alcance as mesmas taxas chinesas. De fato, o Brasil apresenta deficiências sobretudo educacionais, de infra-estrutura, corrupção e gastos públicos. Sabe-se que na globalização, o papel da educação é extremamente relevante, pois o alto nível de qualidade no ensino é condição sine qua non para o país inserir-se na economia mundial de forma competitiva. Além disso, o Brasil precisa investir em infra-estrutura para viabilizar o crescimento e fazer reformas legislativas para imprimir maior transparência na maneira em que conduz seus negócios. Porém, desde a volta dos governos civis, o que ocorreu em 1985, o país passou por inúmeras reformas e resolveu três dos seus principais problemas: a inflação, a dívida e a democracia. A inflação foi contida com o Plano Real em 1994, que provocou uma queda inflacionária de 2.500% em 1993 para os 4.7% de hoje. A dívida do governo caiu para 42,2% do PIB e, a despeito de ainda ser alta, está atrelada ao real e não ao dólar. Por fim, a democracia, embora precise ser amadurecida, já é um instituto sólido. Diante dessas ponderações, aqueles que consideram o Brasil como um país isolado dentro do Bric enganam-se porque, além de todo o seu potencial econômico, a sua condição de país onde o Estado Democrático de Direito é uma realidade, coloca-o como esteio natural do grupo, capaz não só de mostrar que é possível aliar crescimento e desenvolvimento com democracia, mas que essa realidade é imprescindível para concretizar as expectativas que o mundo todo passou a esperar de cada um deles. * JULIANA GIRARDELLI VILELA é economista e advogada pela PUC/SP