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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 01 de Agosto de 2009, 13h:30

MÁRIO M. DE ALMEIDA

Barriga de aluguel

Na ânsia desenfreada de se perpetuar no poder, quando, pela idade avançada, deveria estar desfrutando da respeitável e privilegiada situação de ex-presidente da República, José Sarney chegou ao cúmulo de fazer do Estado do Amapá uma espécie de barriga de aluguel da sua candidatura a senador. Foi o começo do fim da picada... Tinha, até então, uma grande admiração por José Sarney, sobretudo em reconhecimento à sua grande contribuição para consolidar a democracia no Brasil. Mas, passei a vê-lo com outros olhos, justamente na época em que ele, a meu ver, aplicou um golpe de ordem política ao forjar um domicílio eleitoral até então inexistente. Isso não tira o mérito de suas ações positivas, mas macula, por exemplo, o período em que ele, então na qualidade de presidente da República, numa fase difícil e conflitante de transição da ditadura militar para o regime democrático, teve uma atuação fundamental para garantir o pleno Estado democrático e de direito que o Brasil hoje experimenta. Foi, naquela época delicada, um mediador hábil e paciente. Nem todos reconhecem isso, quando, nas páginas do noticiário, colocam-no como se fosse o principal, quando não o único vilão da política nacional, maior até que Zé Dirceu e todos os mensalões do governo Lula. Sarney tem sua parcela - e que não é pequena - de culpa no cartório e, infelizmente, ao constatar o mar de lama jorrar sobre sua biografia, tisnando seus aspectos positivos, colhe o que plantou. Especialmente por não ter tido a virtude de saber a hora de parar de atuar na linha de frente. Se fosse mais prudente e sábio, não deveria pretender mais nada depois de ter presidido a nação e de ocupar o mais alto cargo que um cidadão pode aspirar em seu país. Por não ter essa grandeza e cautela, Sarney passou a pagar um alto preço a partir do momento em que decidiu retornar aos holofotes do poder, e fazendo isso pelo caminho errado. Através de uma manobra política espúria, ou seja, a de transformar o Amapá em “laranja” para viabilizar, eleitoralmente, sua desmesurada ambição de continuar em cargo público de relevância. No que praticou uma esperteza recheada da malandragem própria da pior política brasileira, de baixíssimo clero e totalmente incompatível com alguém que deveria resguardar os anos da velhice como modelo e exemplo de conduta na vida pública. Morar no Maranhão e sair candidato pelo Amapá pode ser legal sob o ponto de vista de uma legislação eleitoral cheia de imperfeições jurídicas, mas deixa máculas no território da ética e da moral. Daí, como diz aquele velho ditado, tudo que começa mal tem tudo para terminar mal. E deu no que deu a teimosia de José Sarney em querer continuar dando as cartas no poder, quando deveria ter optado por permanecer na retaguarda. Com menos evidência, é certo, menos poderoso também, porém mais respeitado e, o que é mais importante para sua história e seu final de vida, livre de muitas dores de cabeça e constrangimentos pelos quais está passando. E ao final da carreira, ao invés de colher paz e curtir netos e bisnetos, protagoniza cenas lamentáveis para a sua trajetória. E pode sair escorraçado da vida pública. Triste, muito triste. * MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do site e jornal Página Única www.paginaunica.com.br

Edição EDIÇÃO 16962




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