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ARTIGO
Quarta-feira, 19 de Junho de 2013, 21h:10

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Aviso brasileiro

Em termos de registros históricos, um dos mais famosos avisos de que o mundo ocidental tem conhecimento trata-se de um “Avis” francês, ou seja, do Cartaz da Comuna de Paris, de 1871. Por aquele cartaz – meio de comunicação abrangente da época – os franceses ficaram sabendo que “os padres e as irmãs das escolas cristãs” haviam abandonado seus postos. Logo, “todos os professores laicos” deveriam se apresentar “à prefeitura, na Sala do Secretariado Geral”. No epílogo do cartaz – depois do destaque à “ocasião solene para inaugurar definitivamente a instrução laica, gratuita e obrigatória” e do anúncio de que “a ignorância e a injustiça” davam lugar “à Luz e ao Direito” –, lia-se o seguinte lema: “Vive la Commune! Vive la Republique!” Na essência, a Comuna – baseada nos princípios da 1ª Internacional dos Trabalhadores – foi uma das mais importantes experiências de regimes comunais. Para sua consolidação, inúmeros cartazes eram fixados. Eles anunciavam as conquistas de demandas populares. Destaco algumas: 1. abolição do trabalho noturno; 2. instalação de cooperativas em antigas oficinas fechadas; 3. desapropriação e ocupação de residências vazias; 4. abolição de todos os descontos em salários; 5. redução da jornada de trabalho; 6. legalização dos sindicatos; 7. instituição da igualdade entre os sexos; 8. separação do Estado e Igreja; 9. instituição de educação gratuita, laica e obrigatória; 10. criação de escolas noturnas, sem a separação dos sexos; 11. reorganização das finanças, incluindo os correios, a assistência pública e os telégrafos; 12. duplicação dos salários dos professores... 13. prática do internacionalismo: ser estrangeiro passava a ser irrelevante; Em suma, as demandas formatavam um conjunto de políticas públicas daquele momento. Mas por que estou falando disso? Por conta dos cartazes brasileiros! Eles – impulsionados pelas redes sociais, aos milhares – voltaram às ruas. E por que os cartazes voltaram? Inicialmente, por redução de tarifas no transporte. Depois, por outros motivos, como a corrupção, a impunidade a políticos corruptos, a má qualidade nos serviços públicos e as políticas públicas, hoje, ausentes ou falidas, como o transporte, a saúde, a educação, a cultura... Parece que aos poucos, muitos – mesmo em clima de exacerbação do futebol – vão se dando conta da dimensão do desmonte do Estado brasileiro. Daí, eles, os cartazes, surgem de todos os lados! Por eles, os recados são dados à elite política. Por falar em recado, finalizo este artigo compartilhando (palavra mais do que da moda das redes sociais) alguns versos do samba “O dia em que o morro descer e não for carnaval”, de Paulo César Pinheiro, imortalizado na voz de Wilson das Neves: “O dia em que o morro descer e não for carnaval// ninguém vai ficar pra assistir o desfile final// na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu// vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil// (é a guerra civil)//...a evolução já vai ser de guerrilha// e a alegoria um tremendo arsenal// o tema do enredo vai ser a cidade partida// no dia em que o couro comer na avenida// se o morro descer e não for carnaval...// O povo virá de cortiço, alagado e favela// mostrando a miséria sobre a passarela//... ninguém sabe a força desse pessoal// melhor é o Poder devolver a esse povo a alegria// senão todo mundo vai sambar// no dia em que o morro descer e não for carnaval”. Detalhe: o “morro” – estrategicamente guardado em “bolsas” e magnetizado por “cartões” – ainda não desceu! Vive la Republique! *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Ciência da Comunicação-USP; prof. de Literatura-UFMT

Edição EDIÇÃO 16962




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