Os adultos da classe média, estão cada vez mais infantis. Sentem-se inseguros, desprotegidos, indefesos. Buscam a todo custo um protetor, um pai, um colo, um conforto, um consolo. Não sabem mais viver sem um casulo, uma redoma, uma armadura. Não ousam nada que não esteja previsto nos manuais ou não seja ensinado por um orientador, anulando toda criatividade e iniciativa própria. Têm um paralisante medo de assalto, de acidente, de perder o emprego, de ficar doente, de ver seus filhos envolvidos com drogas. Não vivem sem seguro do carro, da casa, dos móveis, da mão, da voz, do pé ou qualquer outra coisa que considerem de valor. Garantem-se com a previdência pública e com programas complementares de aposentadoria, fazem planos de saúde, alguns até para o cachorrinho ou o gato. São instituições que contratam para gerir a vida, diminuir incertezas, minimizar angústias, buscar a paz que nunca chega. Têm enorme dificuldade de disciplinar os filhos e nem sabem como fazê-lo. Sentem-se culpados em dizer não, estabelecer limites, contrariar vontades. Acreditam, porque os especialistas dizem, que devem proteger os rebentos de toda contrariedade para evitar traumas. Apavorados com os tais traumas recorrem a educadores, psicólogos, religiosos ou buscam nos livros de auto-ajuda a forma ideal de desenvolver crianças saudáveis e equilibradas. Mas na verdade estão transmitindo, potencializada, toda a sua nefasta infantilidade, criando descendentes cada vez mais dependentes, inseguros, exigentes. Nenhuma criança sobe mais na mangueira para apanhar uma fruta, por sua livre recreação. Agora, por medo de que lhes ocorra alguma coisa ou mesmo porque já não há mais árvores, os pais os levam para clubes de arborismo onde, com capacetes especiais, colete protetor, ridiculamente amarradas pelos fundilhos, lançam-se do alto das árvores amparadas pelos indefectíveis instrutores e todo um sistema de segurança. Tamanha dependência para aprenderem a ser independentes. O aprendizado, antes simples e fácil, de andar de bicicleta, hoje é quase uma operação de guerra. Há de se escolher um local seguro, paramentar o pobre aprendiz de tantos detalhes de proteção que ele fica parecendo um palhacinho colorido e desconjuntado. São joelheiras, tornezeleiras, capacete, luvas, botas. Falta só deixar uma ambulância de prontidão para algum possível acidente, diante de tão grande aventura. A criançada não joga mais pelada de rua, não pesca nos córregos, não brinca de bolita; só pratica esportes nas escolinhas, pesca nos pesque-pagues peixes domesticados com iscas artificiais, sempre acompanhados de professores e monitores e obedecendo à regras rígidas. Exercícios devem ser feitos somente nas academias computadorizadas que medem pressão, frequência cardíaca, calorias perdidas, precedidos de avaliação médica e programa de alimentação balanceada. Pra sair na rua a mãe verifica se a criança está levando o celular, o cartão de crédito, o documento de identidade e se passou creme hidratante e filtro solar, porque o sol é perigoso, muito perigoso... Com tanto monitor, instrutor, professor, normas, regras, manuais, equipamentos de segurança, cuidados, teorias, medições, avaliações tudo vai ficando tão sem graça que deixa de ser brincadeira e vira compromisso. Aí sobra um só brinquedo que é o computador, onde nada acontece de verdade: os tiros não matam, o tombos não ferem, as machucaduras não doem. Nele os jogadores não aprendem a decidir porque as decisões não trazem conseqüências reais. Pobres crianças que deveriam ser livres, simples, criativas, andar descalças, tomar chuva e sol, conviver com situações inesperadas e hoje não vivem sem manuais. Pobres crianças e adolescentes obesos que sabem tudo de informática, falam inglês, francês, alemão, freqüentam balé, yoga, fazem lipo, implantam silicone e não conseguem passar numa pinguela. Quem conhece uma pinguela, entenderá a metáfora. Ela é estreita, quase sempre roliça, às vezes escorregadia, desprotegida, insegura... Não tem corrimão, parapeito, guardheil. Passá-la exige avaliação: convêm, não convêm; o ganho compensa, não compensa; os riscos são administráveis ou não. Demanda escolhas: vou em pé, sentado, de quatro... Requer equilíbrio, tranqüilidade. Pede coragem, porque iniciada a travessia não é mais possível contar com qualquer ajuda externa e a volta às vezes é impossível. Atalhos são desvios que encurtam caminhos. Podem levar ao fracasso ou conduzir ao sucesso. Eles quase sempre são inóspitos, difíceis, cheios de pinguelas.. Muitos envolvem riscos que os manuais não recomendam e o seguro não cobre. Pegá-los é uma decisão pessoal: trocar a mesmice da estrada batida pelas incertezas da trilha difícil. Quem não passa em pinguela não pega atalho diz o ditado de minha própria lavra. * RENATO DE PAIVA PEREIRA empresário
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