Antes de tudo, desejo a todos, em 2013, a mesma disposição para o compartilhamento da crítica diária, elemento indispensável à democracia. Mesmo com tal disposição, mas para não interromper o relax das férias, de início, pensei escrever algo que não versasse sobre a política contemporânea. Tratar disso é sempre pesado. Assim, cheguei a construir mentalmente um artigo sobre Lado a Lado, telenovela exibida pela Globo, no horário das 18h. Afinal, relevando deslizes da trilha sonora, aquela telenovela tem se revelado uma boa produção cultural para o gênero. Ambientada nas primeiras décadas da República, ou seja, na virada do séc. XIX para o XX, algumas aulas de história, literatura e música, destacando o samba, surgem a cada cena, a cada diálogo. Nem mesmo detalhes de cenário, vocábulos e expressões da época são olvidados. Talvez o esmero dessa produção seja uma das formas de minimizar a estupidez de tantas piriguetes e outras aberrações do último ano. Claro que já não estamos livres de outras m.... Os espiões e fofoqueiros desse país que não são poucos que o digam. Infelizmente, vivemos um tempo de desmantelo cultural como nenhum outro país vive. Mas só pensei em escrever sobre isso. A pauta hodierna me provocou. O responsável pela provocação foi um artigo que o petista Tarso Genro governador do RS publicou em Carta Maior (veículo do tipo porta-voz do governo), no dia 23/12/2013. Partindo do título Alfred Döblin faz lembrar nosso glorioso PT e outros tantos anos novos, ao final do texto, Tarso anuncia com absoluta certeza mais dois mandatos do PT: um com Dilma, em 2014; outro em 2018, sem identificar com quem. Ate aí, normal. Na democracia, todos têm o direito. Acontece que para atingir esse ponto houve um longo percurso discursivo, cuja centralidade foi tentar descaracterizar o STF por meio do julgamento da Ação Penal 470, vulgo Mensalão do PT. Para sustentar seu ensaio, Tarso baseou-se num enunciado de uma entrevista concedida pelo ex-presidente do STF, Ayres Brito, que disse: O que estamos aqui julgando é um modo espúrio, delituoso, de fazer política... Logo, para o articulista e trombeteiro do PT, o que houve naquele julgamento foi uma judicialização da política e não o julgamento de políticos em si, que eventualmente tenham se desviado da boa política. Por isso, para Tarso, dois motivos básicos... manterão por muito tempo... a Ação Penal 470 como o centro de todas as estratégias políticas da direita, em geral, e da oposição midiática, em particular. Para ele, o primeiro motivo é criar a ilusão de que é possível escrever um Brasil mais decente e mais democrático por fora da política. O segundo é que esse deslocamento poderá funcionar como uma alternativa à hegemonia do PT e da esquerda no âmbito eleitoral... Logo após, Tarso expõe aos congressistas uma saída, dizendo: Assim, a Ação Penal 470 continuará sendo se o Parlamento e os Partidos não reagirem com reformas sérias que deem mais dignidade ao fazer político democrático o centro do debate pautado pela mídia e pela direita anti-Lula. Haja paciência para esse discurso de amigos de salteadores do erário. Agora o pior é ver petistas falando em mídia conservadora e direita 'anti-Lula'. Eles se acham de esquerda!!! O fato é que o regozijo de petistas é o cultivo da ignorância, sustentada muitas vezes até com diploma universitário, de uma camada significativa da sociedade. Logo, o desafio para 2013, 14, 18... é suplantarmos essa ignorância. Quem sabe um dia? * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, dr. em Jornalismo/USP; prof. Literatura/UFMT
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