ARTIGO
Quinta-feira, 03 de Abril de 2008, 21h:41
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PAULO ZAVIASKY
Artistas do crime
Há fatos que incomodam as residências de pessoas normais. Por exemplo, um vizinho que vive passeando em cima do muro sondando o movimento da gente e tirando a intimidade de todo mundo. Ou essas câmeras de segurança motorizadas e com zoom que são colocadas estrategicamente nos telhados das casas vizinhas, portanto bem acima do nível do mar, e que acompanham os nossos movimentos nos quintais ou piscinas. Ficam todas desligadas. É só você entrar na piscina, que todas elas fazem aquele barulhinho do motorzinho direcionando todas as câmeras para um lado só o nosso lado e o pontinho vermelho se acende como a dizer acabam de me ligar ou vizinho idiota, você está no BBB-vizinho. Você descobre que há mais tarados entre o céu e a Terra do que desconfia a nossa vã safadeza. Particularmente, não me importo porque também já fui criança. E tinha o Morro da Luz, nossos sobe-desces das ruas e os fundos de nossos quintais. Não haviam inventado os chuveiros e já havia binóculos. Quem de nossa geração já não esteve sentado no Morro da Luz, com binóculos, a partir das quatro e meia da tarde até às sete da noite?... As melhores garotas de nossa melhor sociedade de antigamente tomavam banho atrás dos depósitos de água que ficavam bem atrás das casas, naqueles quintais das saudades. Pois bem, leitores, com os ingredientes: alto do morro, fundo dos quintais, depósitos de águas, hora do banho e um binóculo fizeram com que a nossa geração inteira se transformasse nesses tarados de hoje. E a mania da casa BBB da Globo pegou mesmo em todos os lugares mais imprevisíveis. Nas empresas públicas e privadas, escolas, igrejas, feiras livres, cinemas, postos de combustíveis, shoppings, lojas, butiques, Lyons, Rotarys, assembléias legislativas, órgãos do Executivo e do Judiciário e até nos postes de rua. Com isso, acabamos de descobrir um fato interessante: o aumento da criminalidade. No Rio de Janeiro, nem se fala. Pouco tempo atrás, os marginais se preparavam, se fantasiavam até de Zorro, com a finalidade de ser fotografados para as primeiras páginas dos jornais especializados em sangue e crimes. Com o advento da TV, os bandidos se produzem com cortes de cabelo, roupas de grife, maquiagem especial para bandidos, para ser filmados e entrevistados pelos repórteres do 1deus-me-livre1. O crime aumentou, evidentemente. Agora que todo mundo coloca as câmeras até nas privadas, descobre-se um aumento fantástico de bandidos, assaltos e tiroteios, pois os criminosos fazem de tudo para aparecer nas gravações dessas benditas câmeras que vão parar direto, antes da polícia, nas redações dos telejornalismos do sangue e das dores. São os artistas do crime. O prefeito de Cuiabá retirou todas as câmeras do trânsito daqui. Por isso, aconteceu aquilo que já sabíamos. Diminuíram os acidentes. Agora, ele deseja recolocar as mesmas câmeras. Também já sabemos o resultado. Os acidentes vão mesmo aumentar. É que há os artistas da morte. Mesmo mortos em acidentes, muitos desejam e sonham que seus corpos apareçam nas TVs das dores, ou policiais como falam por aí. * PAULO ZAVIASKY está no 24horasnews e comenta ao vivo pela Rádio Natureza de Chapada (MT) e emissoras autorizadas