ARTIGO
Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010, 20h:30
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GABRIEL NOVIS NEVES
Arapongas
Até o início do século XXI, o nosso Estado era pouco lembrado pela mídia nacional. Dificilmente uma notícia aqui da terrinha, despertava a atenção dos grandes veículos de comunicação. Mato Grosso sempre produziu personalidades para o primeiro time da administração deste país. Só de presidentes da República foram dois. O cuiabaníssimo Eurico Gaspar Dutra e o sulista Jânio Quadros. O primeiro foi o responsável pela redemocratização do Brasil após a ditadura de Vargas. O período do seu governo foi marcado pela ética e respeito ao livrinho - termo com o qual Dutra se referia à Constituição Federal. No término do seu mandato, voltou à condição de cidadão comum. Caminhava pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, sozinho, sem o aparato de seguranças e assessores. Um presidente que será sempre lembrado como um republicano no poder. O sulista mato-grossense, Jânio Quadros, não quis rezar com o Congresso Nacional a oração de São Francisco de Assis É dando que se recebe. Abandonou o governo de pés trocados... Cândido Mariano, o único militar sertanista reconhecido pelo Exército Brasileiro, ministros de Estado, embaixadores, professores, historiadores, intelectuais que chegaram a Academia Brasileira de Letras, como Dom Aquino Corrêa, fez a história desta gente. O homem das Diretas Já era cuiabano. Mesmo assim, só aparecíamos na grande imprensa através dos tais Informes Publicitários - tão do agrado dos nossos governantes. Hoje é raro o dia que o nosso Estado está ausente da mídia nacional. Mas, seria preferível o anonimato do passado, ao ter que protagonizar notícias tão vergonhosas! Li com tristeza e frustração que Mato Grosso é o segundo Estado em escuta autorizada Justiça, segundo levantamento da Corregedoria Nacional de Justiça (CNJ). Mesmo com uma população treze vezes inferior a do Estado de São Paulo, o nosso perdeu por poucos pontos o primeiro lugar. O livro dos recordes entendeu ser elevado o grau da criminalidade em Mato Grosso, e o Guines nos colocou em suas páginas. Nesses últimos anos ganhamos muitos títulos que estão no livro dos recordes. Fomos reconhecidos como vencedores morais na formação de organizações criminosas e tráfico internacional de drogas. Apesar de ocupar o segundo lugar em escuta autorizada no Brasil, a sociedade não percebeu nenhum benefício com relação a essa grave doença social a corrupção. Acho prudente que, para o próximo ano, se aumente o número de escuta oficial... Mesmo com a escuta, o crime está dominando o Estado. O pó branco é adquirido com facilidade em Cuiabá, que está se transformando num imenso Morro do Alemão, com o apoio dos nossos hermanos, e muy amigos, vizinhos. Todos sabem da existência da escuta clandestina - talvez em maior número que as autorizadas pela justiça. A finalidade da clandestina é bisbilhotar a vida do cidadão para fins criminosos. Não sou membro de nenhum grupo adepto dos negócios fáceis e lucros fantásticos. Sou um escritor de um único leitor (eu). Como seguro morreu de velho, já tenho preparada a minha malinha básica para uma possível temporada de repouso em algum presídio - por crime de opinião. Pena que não possuo aquele cartãozinho, que é vendido no período eleitoral, e que oferece imunidade aos seus portadores. Custa muito dinheiro, e só adquirem o cobiçado e milagroso cartãozinho, aqueles que têm as máquinas (não confundir com tratores) do governo que produzem votos. Enfim. Aguardamos que medidas sérias sejam tomadas para tirar o nosso Estado dessa terrível situação em que a irresponsabilidade governamental nos jogou. Mato Grosso - Estado de bandidos. Salvem-nos desta humilhação, senhores arapongas! *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT