É engraçado como olha. Tem gosto de provação, com pitada de dúvida, mas grande quantidade de curiosidade. Ele observa o todo, mas fica focado na parte. Atento, questiona quando contrariado. Preocupado, pensa somente em comer. Alguns dias passam e a roupa de hoje não serve mais. A de ontem foi embora. É preciso comprar a de amanhã. Mas isso é o de menos, afinal não liga para moda, para cores, para o tamanho. Quem o carrega é mais preocupado, pois fica pensando o que os outros vão achar. As unhas crescem, ou seja, o rosto ficará arranhado de novo. Ahh... aqueles olhos. No início, virava o rosto ao ser encarado. Depois, acostumado com as pessoas em volta, fixa o olhar, daí vem o tom de provocação. São estranhos os sons que libera, é um idioma muito complexo, muito confuso, mas direto. Ele está crescendo e, com isso, uma série de exigências são feitas. Não é mais só comer. Agora é atenção. Você deve estar concentrado aos seus gestos e vontades, caso contrário, parece que a casa irá desabar. De repente, o silêncio domina. Cadê aquela criatura ávida por atenção? Cadê as reclamações, a ira, os sons complexos? Sumiram. Não resta mais nada do que, há dois minutos, era único. Olha-se para o lado, está acanhado, parado, somente os pulmões movem. Dormiu! Alguma coisa está faltando, apesar de todos estarem aqui. Tão complexo como o idioma único é o som do silêncio, um som arrepiante, de preocupação. No quarto, só a tevê conversa. No fundo, os pombos continuam dominando o telhado. Além disso, mais nada. O silêncio é estranho. Mas, com o tempo, é possível se adaptar. As coisas, de certa forma, estão se organizando, cada objeto parece que está no seu lugar. De repente... um choro, uma mistura de dor, raiva e reclamação. Que falta fazia esse choro. A solidão diminuiu. Não há motivo para as coisas ficarem no lugar. A desorganização trouxe uma ótima sensação depois que ele invadiu esse lugar. Todos estavam sentindo sua falta. Todos estavam acreditando que, sem aquele choro, aqueles barulhos e aquele idioma incompreensível, nada estava bom... aqueles olhos... Sua falta foi sentida. Que bom ter acordado, filho! *FERNANDO DUARTE é repórter do Diário de Cuiabá
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