No artigo desta terça-feira, A vaia do dândy Lula, escrevi uma frase que me gerou irados e-mails de petistas que usam um sistema que bloqueia resposta: Lula é assim. A cada oportunidade de discursar ele saca do bolso uma série de frases feitas e algumas percepções extremamente pessoais sobre aquilo a que se refere. Digo pessoais, porque tudo o que ele fala não é o que o governo pensa ou faz. Lula e o governo são entidades absolutamente distintas. O governo anda por si só, na medida do possível. O presidente anda e fala por si só, na medida do possível. Parecia profecia. No mesmo dia, no final da tarde, o Airbus da TAM desceu na pista recém-inaugurada do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e provocou a morte de mais de 200 pessoas entre passageiros, funcionários da TAM no prédio de cargas, e terceiros. Estava em casa escrevendo o artigo de quarta-feira quando abri o portal RDMonline e lá estava a nota de um possível acidente. Daí para a frente acompanhei tudo até à 1 hora da madrugada. Ontem, acordei cedo e liguei a televisão e depois li os jornais e sites. Um drama! Mas a frase que mais encontrei em tudo que li e vi, foi era uma tragédia anunciada. De fato, foi! Desde setembro do ano passado, quando o avião da Gol caiu no norte de Mato Grosso, ficou evidente um grande apagão no sistema de controle do tráfego aéreo no Brasil. O governo escamoteou, deu desculpas, jamais assumiu sua parte, os controladores de vôo entraram numa briga pública. Primeiro, brigaram entre si, depois com as empresas aéreas, com o governo, com a sociedade e terminou numa briga idiota entre os controladores civis e os militares. A rigor, tudo o que se revelou depois, foi a bagunça do que era considerado um dos sistemas mais perfeitos do terrível serviço público brasileiro. Não era! Equipamentos velhos e sucateados, caríssimos, superfaturados e comandados por controladores de vôos politizados ideologicamente. Aos poucos foram surgindo evidências disso, quer seja na descoberta de dezenas de acidentes evitados por milagre, e até mesmo o enfrentamento dos controladores de vôo contra a sociedade em sucessivos apagões que pararam o país. O pior, o governo federal entrou na paranóia de dar desculpas e procurar culpados. Não conseguiu nem uma coisa e nem outra, mas o presidente Lula e as chamadas autoridades do setor aéreo puderam fazer belos discursos sobre tudo. O presidente, então, disse todas as bobagens possíveis, menos dar solução. Um ministro da Defesa caquético e caduco, militares corporativistas e controladores politizados. E os aeroportos parando, passageiros apagados nos aeroportos, companhias aéreas aproveitando-se da confusão para ganhar mais dinheiro. Por fim, o aeroporto mais movimentado do país, com uma pista defeituosa, superfaturada e recém-inaugurada, se encarregou de desvendar o apagão do governo brasileiro. Que, aliás, não é só do setor aéreo. É geral. Não vai ser possível culpar a TAM, porque seu avião é novo, é moderníssimo e todo automatizado. Começa a se desfazer o céu de brigadeiro do presidente Lula que governou até agora com seus discursos de ocasião. Com 200 cadáveres humanos carbonizados nas mãos, precisará de ações de governo e não mais de discursos pessoais tirados da cartola. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM
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