ARTIGO
Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012, 20h:48
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ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ
Ao rei do baião
Um ginásio de esportes. Um tablado desnudo. Uma sanfona branca. Uma zabumba. Um triângulo. Final dos anos 70. Foi a primeira vez que eu assistia a um show de um artista que, até então, eu só ouvia num velho rádio Semp de minha família. Em meio a enorme expectativa, de repente, surgiu ele, Luiz Gonzaga, trajando gibão branco e um colorido chapéu de coro. Eu vi um rei! Junto consigo, dois músicos. Até ali, tudo descritível. O indescritível chegara em sintonia com a primeira sanfonada. Do nada, aquela sanfona branca se abriu larga e vagarosamente, como se quisesse abraçar, com muito carinho, cada um dos que a ouviam. Do primeiro acorde, a parte do abraço que me coube foi tão forte que eu me senti um nordestino, mesmo tendo nascido tão longe de lá daquelas bandas. Pela primeira vez, me percebi bem brasileiro. Depois, a segunda sanfonada, ou o segundo acorde. Colado ao seu término, um vozeirão tão nordestino, bem arrastado, ordenava: Vai boiadeiro que a noite já vem... Depois daquela ordem, a desordem dos corpos ali presentes foi o que se sentiu. Que força tem um triângulo! Que sintonia com os Tum-tuns do coração têm as pancadas na zabumba! ...Guarda o teu gado e vai pra junto do teu bem, dizia o segundo verso, àquela altura, já acompanhado dos três instrumentos. Depois, uma estória cantada; simples, mas tão singela! No início, de manhazinha, o boiadeiro, pela estrada, sua boiada pra invernada, ia levando. Eram só dez cabeça, muito pouco, quase nada, mas não tinham outras mais bonitas no lugar. Já de tardezinha, na volta, o boiadeiro encontrava a fiarada todinha a lhe esperar: dez fiinho. Também era muito pouco, quase nada, mas não tinham outros mais bonitos no lugar. No final, chegando na cancela da morada, sua Rosinha vinha correndo lhe abraçar. Ela era pequenina, miudinha, quase nada, mas não tinha outra mais bonita no lugar. Depois disso, ouvi alguns dos tantos clássicos do cancioneiro popular. A Asa branca um hino nordestino fez-me pensar na dor que é ver uma terra ardendo qual fogueira de São João, que é não ver nenhum pé de prantação, que é perder todo o gado, que é morrer de sede o alazão. Também sofri com a dor do Assum preto. Que triste! Vítima da ignorança ou mardade das pió, o pássaro teve os olhos furados pra ele assim, ai, cantá de mió. Mas, mesmo em meio a adversidades, o nordeste também é alegria, é vida. E Gonzagão cantou as alegrias, cantou o ciclo da vida. Uma lembrança disso foi O Xote das Meninas. Assim como o mandacaru, que quando fulora na seca// É o siná que a chuva chega no sertão// Toda menina que enjoa da boneca// é siná que o amor já chegou no coração.... Que belo casamento poético! Que imagens da fecundidade de um e de outro elemento da natureza: mandacaru e mulher! Mas o auge da alegria foi quando Luiz Gonzaga se pôs a ensinar o povo a dançar o baião, do qual é o eterno rei. Quando o show se findou, eu não queria sair dali. Aquele lugar se tornara mágico. Aquele momento me ajudava a abrir meus ouvidos para os poemas, principalmente quando eles vinham acompanhados de instrumentos, mesmo que com tão poucos: uma sanfona, um triângulo, uma zabumba. Só isso! Tudo isso! Diante dessas lembranças, não sem me angustiar, indago: quantos de nossa juventude de hoje terão algo parecido para contar a alguém daqui a vinte, trinta, quarenta... anos sobre o seu primeiro show? Esta é minha homenagem e meu agradecimento a Luiz Gonzaga, um ícone de nossa cultura, que faria cem anos no dia 13 de dezembro. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP; prof. de Literatura/UFMT