Adoro estórias contadas por mineiros. Tem todo um floreamento, um alongamento desnecessário, mas que encanta e, paradoxalmente, envolve. Caso comprido enche o saco, mas causo de mineiro não. Tem um contado por um mineiro de Governador Valadares que mata qualquer um de rir. Esse meu conhecido sempre visitava Almeida, amigo de longa data, amizade feita em torno de garrafas, o que é coisa séria. Acontece que Almeida tinha um filho de uns oito anos que era o capeta em forma de gente, que é como falamos lá em Minas quando se trata de menino maligno, atentado etc. Uma maneira que Almeida utilizava para manter um certo controle sobre o menino perto das visitas era ameaçá-lo com uma possível surra do visitante, mas sempre em tom de brincadeira. Sempre se dirigia ao garoto. Um dia, querendo sofisticar, dirige-se a nosso amigo e fala: fulano, você não quer dá um surra neste moleque para mim não? Foi atendido de imediato visto que nosso amigo já respondeu partindo para executar a tarefa. Aplicou uma correção no moleque, que este caiu no mato chorando e nunca mais encheu o saco de visita. A amizade nunca mais foi a mesma, mas o guri parou de fazer firula perto de visita. Não tive como não lembrar desta estória de mineiro diante deste recente romance entre Álvaro Uribe e Hugo Chávez. De onde saiu esta amizade? Explico. Os governantes da América Latina falam o que querem. Lula xinga Bush onde o americano não é querido e elogia onde é amado. A mesma coisa acontece com Chávez. Esculhamba Bush mundo afora mas continua vendendo todo seu petróleo para os americanos e sabe que se não vender para eles é uma catástrofe porque não tem tempo para montar uma logística de entrega e um arcabouço jurídico para mudar de cliente. A China que ele vive citando na discurseira não teria hoje como comprar por conta dos contratos de fornecimento de grande volume para óleo pesado. A parte que ele compra no mercado paralelo e em fornecedores eventuais é do tipo leve, que a Venezuela não produz. E a brincadeira tem o outro lado também. Os EUA sabem que é tudo mentira e não importam. Imagino os caras do departamento de estado referindo-se a esta turma naquelas reuniões de estado. Os caras não querem ser respeitados. Um bando de ibéricos deslumbrados e inofensivos imagino aqueles americanos protestantes falando. Acontece que Chávez envolveu o Irã na estória. Recebeu oficialmente em Caracas Ahmedinejad, assinou tratados bobos sem conseqüência prática mas cheios de significado político, tudo para enche o saco dos EUA. Este pessoal é persa. Vieram do fundo da Ásia e ali se estabeleceram há mais de mil anos e o povo árabe dali até hoje vive com eles atravessados. Os EUA uma vez armaram Saddam até os dentes para derrubar os aiatolás iranianos e saíram todos corridos de lá, até o embaixador americano. Puseram fogo na embaixada americana. Bandeira americana virou pano de banheiro de boteco em Teerã. Agora o Irã quer bombardear Israel. Pela primeira vez na vida vi temor nos Israelitas. (De hoje em diante não me refiro mais a este povo como judeus, isto é um equivoco histórico e estou estudando este assunto, volto a ele com mais calma). Sabe que estes caras são determinados. Para se ter uma idéia o Hamas da palestina pediu moderação a Ahmedinejad. Pois bem. Avisado por alguém de fora, porque no governo ele só tem puxa saco e bestalhão, Chávez viu que se houver uma radicalização lá no oriente médio os EUA não estarão preparados para interferir no conflito diretamente. Fim de governo, quebrando um banco por semana, Iraque mal resolvido, não pode brigar com os sauditas etc. Então mostrará serviço para o esquema israelita atacando o aliado regional do inimigo. E fará isto usando as bases que já lutam contra a narco-guerrilha na Colômbia. Triste fim da valentia de Chávez. Nunca mais brinca de gente grande. * PAULO RONAN é economista
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