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ARTIGO
Sábado, 24 de Maio de 2008, 14h:26

GUSTAVO OLIVEIRA

A volta de Indiana

Grande parte dos fãs de filmes de aventura lembra dele como o maior mocinho que já surgiu nas telas. Por conta disso, ressuscitar o arqueólogo-explorador quase duas décadas mais tarde poderia ser tão catastrófico quanto violar a tumba amaldiçoada do faraó. Temerariamente, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008) brinca com o perigo e coloca novamente o personagem em apuros - mas, para felicidade dos entusiastas da série, Harrison Ford, 65 anos, continua dando de chicote na concorrência. Mesmo que Indiana Jones e a Última Cruzada tenha colocado em 1989 um ponto final na carreira cinematográfica do protagonista - iniciada com Os Caçadores da Arca Perdida (1981) e continuada em Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984) -, os admiradores do professor mais destemido do mundo acadêmico nunca perderam a esperança de rever Indy em ação. Em 2006, a roda finalmente começou a girar para a produção de um quarto filme reunindo a trinca de ouro dos títulos anteriores: Harrison Ford encarnando Indiana Jones, Steven Spielberg dirigindo e George Lucas produzindo. A boa notícia é que o mesmo vigor da trilogia original ecoa também em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, trazendo o personagem e a trama para mais perto dos nossos dias, porém sem abrir mão do delicioso tom nostálgico característico. O filme respeita o período de hibernação de Indiana Jones no cinema: o enredo abandona os anos 1930 das três produções anteriores e começa 20 anos depois, em 1957. Uma base militar americana no deserto de Nevada é o primeiro cenário da volta do aventureiro - Indy é introduzido em Caveira de Cristal com imagens que reverenciam a mitologia em torno de sua figura. Mas, como é típico no caçador de preciosidades arqueológicas, logo a ironia e a capacidade de meter-se em encrencas entram em cena, juntando-se à valentia e à habilidade de escapar das mãos dos inimigos. Ao lado de um novo companheiro de aventuras, o ambíguo Mac (Ray Winstone), Indiana tem que fugir de um comando soviético, liderado pela gélida oficial Irina Spalko (Cate Blanchett, em ótima atuação caricatural, que lembra a vilã vivida por Lotte Lenya em Moscou Contra 007). Os comunistas querem a ajuda do cientista para encontrar uma relíquia escondida pelo exército americano. Depois de despistar os russos, Indiana volta a lecionar - mas a Guerra Fria vai persegui-lo mesmo na Universidade Marshall: por conta de suas atividades como espião dos EUA durante a II Guerra (por sinal, fato que não é mostrado em nenhum dos filmes), o herói torna-se suspeito de atividades antiamericanas e é obrigado a abandonar as aulas. Antes de partir, entretanto, ele é abordado pelo jovem Mutt Williams (Shia LaBeouf) com a notícia de que o professor Oxley (John Hurt), antigo mentor de Indiana, sumiu nas selvas peruanas enquanto buscava pela Caveira de Cristal de Akator - lendário objeto de uma civilização ameríndia que pode ser a chave de um inestimável tesouro. O impetuoso rapaz, mistura do Marlon Brando de O Selvagem com o James Dean de Juventude Transviada, convence Indiana a viajar até a Amazônia atrás de Ox e de sua mãe, igualmente desaparecida - e que, para surpresa do explorador, ele descobre tratar-se de Marion Ravenwood (Karen Allen), par do mocinho em Os Caçadores da Arca Perdida. Além dos perigos naturais da missão, Mutt e Indiana terão que enfrentar ainda a persistente soviética Irina - talvez o melhor arquiinimigo que já cruzou o caminho do herói. Spielberg e o roteirista David Koepp, espertamente, reproduzem em Caveira de Cristal situações já experimentadas com sucesso nos outros títulos da franquia: as divertidas brigas de casal de Os Caçadores..., as alucinantes perseguições de veículos de O Templo da Perdição e a relação pai e filho de A Última Cruzada. O filme titubeia um pouco no início, patinando até encontrar o ritmo apropriado para um Indiana ainda em forma, mas incontornavelmente envelhecido; logo, no entanto, a história engrena, dosando com perfeição cenas eletrizantes - algumas rodadas em Foz do Iguaçu - com seqüências de pura comédia. E, se nos primeiros episódios a narrativa era influenciada pelas séries das matinês dos anos 30 e 40, em Caveira de Cristal a matriz são os filmes B de espionagem e de ficção científica dos anos 50, com citações à paranóia anticomunista, ao medo da bomba atômica, ao fascínio pelos extraterrestres e ao nascimento do rock’nroll. Resta saber se a garotada que curte nos cinemas os arrasa-quarteirões de hoje - e que recém tinham nascido quando Indiana pendurou a chibata pela primeira vez - embarcará nessa viagem retrô. Para os mais velhos, Caveira de Cristal não deixa dúvidas: ainda está para nascer o dia em que Indiana Jones vai literalmente passar o chapéu adiante. GUSTAVO OLIVEIRA é diretor de Redação do Diário [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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