ARTIGO
Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2013, 21h:31
A
A
LUCIANO VACARI
A pecuária de corte de Mato Grosso
A pecuária mato-grossense é reconhecida por sua dimensão e pela qualidade com que produz, dentro das legislações vigentes nos âmbitos social e ambiental, uma carne que é exportada para grande parte dos países consumidores, além de alimentar a população brasileira, chegando a todos os cantos do país. Produzir proteína vermelha não é exclusividade da indústria, ela começa no campo, nas propriedades rurais geridas pelos pecuaristas. Mas a continuidade deste processo está ameaçada. A falta de renda, de tecnologia e assistência profissional compromete a primeira e fundamental etapa, a cria. Nos últimos anos, a necessidade de aumentar a produtividade, reduzir e melhorar as áreas de pastagens e utilizar tecnologia em genética têm exigido investimentos dos pecuaristas, principalmente dos focados em cria, para que o rebanho seja formado com qualidade e dentro dos parâmetros mundiais. No entanto, a falta de renda limita os recursos disponíveis para os aportes e a contrapartida do poder público não contempla os produtores. A falta de políticas públicas voltadas para a cria, modelo que consiste na criação de bezerros para abastecer as demais fases da criação, tem impedido o crescimento do rebanho de novilhas e estimulado o abate de fêmeas. Nos últimos dois anos, devido a uma crise de pastagem e falta de recursos para recuperar o pasto é possível constatar o aumento da participação das vacas nos abates. Ano passado, 34% do total abatido eram fêmeas, percentual que saltou para uma média de 50%. A primeira consequência desta medida será o apagão de bezerros nos próximos anos. Em Mato Grosso mesmo, em cidades como Pontes e Lacerda, uma das principais da pecuária estadual, produtores estão buscando bezerros em Rondônia para suprir a demanda. Outras regiões que se destacavam pela cria, como Arinos-Juruena e Nordeste, os levantamentos apontam que o que está ocorrendo é uma migração das áreas de pastagem para a agricultura, movimento resultante da falta de renda do pecuarista e altos preços das commodities agrícolas. Caso não haja mudanças nas linhas de crédito para que se tornem compatíveis com a pecuária bovina, com prazos e juros possíveis de serem honrados pela renda dos produtores, haverá mais perdas e a produção de carne ficará desabastecido por falta de bezerros. As linhas lançadas pelo governo, quando são acessíveis aos pecuaristas, não são suficientes, como é o caso do FCO que aprovou R$ 175 milhões em cartas consultas, porém não tem recursos para liberação do dinheiro. Anunciam um recurso que não existe e compromete a toda a cadeia. Os problemas não estão restritos às linhas de crédito, falta também assistência técnica para os pecuaristas, que há algum tempo deixou de existir tornando o setor refém de representantes comerciais de produtos que focam no lucro da empresa e não no desenvolvimento sustentável da propriedade. Por esses e outros motivos, a Acrimat lança para 2013 o desafio de retirar a cria da crise e possibilitar renda para o pecuarista investir em genética, pastagem e consequentemente qualidade dos animais produzidos no Estado. Vamos percorrer 30 cidades mato-grossenses com o programa Acrimat em Ação 2013 trazendo como temática principal a cria. Também iremos lançar um projeto para valorizar a produção com a realização de leilões de bezerros crioulos e premiação dos animais e vamos propor a criação de políticas públicas voltadas exclusivamente para este segmento fundamental para pecuária. Ações que deverão ser difundidas em todas as regiões do Estado, para fortalecer a cadeia da pecuária e reduzir os impactos do abate de bezerros nos próximos anos, evitando deixar mercados desabastecidos e encarecer o custo da alimentação no país. *LUCIANO VACARI é gestor de Agronegócios e superintendente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat)