ARTIGO
Segunda-feira, 04 de Agosto de 2014, 19h:54
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GUSTAVO NASCIMENTO
A maldição
Quem vive do trabalho de escrever, seja ele jornalista, analista, articulista, cronista ou escritor, sofre de uma terrível maldição: a odisseia da imparcialidade. Imparcialidade é um termo praticado na imprensa e até mesmo na Justiça que se refere a não privilegiar ninguém e nenhuma parte. Não vou levar este texto para o lugar comum, que diz que a imparcialidade é o ofício da profissão e algumas coisas enfadonhas que ouvimos na faculdade ou de colegas e amigos. Logo cedo, entendi que ser imparcial é impossível! Simples assim. Ouvir todos os lados, dar o mesmo destaque para as partes é difícil, porém factível! Agora se eximir do seu eu, das suas raízes, sua crença ou da falta dela para tentar enxergar as coisas sob uma ótica superior, quase esnobe, de fatos que sequer são sua especialidade, bem, isto é impossível. A tarefa se torna ainda mais complicada quando temos que exercer nosso trabalho diante de problemas pessoais. Até um artigo se torna quase impossível de ser redigido. Então, o caro leitor vai me dizer que todo profissional terá dificuldades de trabalhar quando está atravessando uma fase difícil. Ok, eu não discordo disso, porém a arte de escrever exige mais. Quando por ofício você precisa esconder isso, a instabilidade emocional te joga para o abismo. Coesão e coerência não são exercícios do coração, e sim da racionalidade. A priori, prima pela isenção, no entanto, não quer dizer frieza, que seria o caminho comum para não se abalar. Os melhores textos são aqueles em que a caneta é uma extensão do coração e o escritor deixa de ser apenas um intérprete para se tornar compositor. Lembro que assim que cheguei à redação falei para minha editora que não poderia ser jornalista por não conseguir andar entre os dois pontos, olhar sem me abalar, escrever sem me meter. Ela veio e me falou: Gu, ser escritor é isso, é se por no papel sem estar lá. Texto tem cheiro, cor, sons e sabores, quando você conseguir fazer isso sem levantar a bandeira, bem, aí você estará pronto. GUSTAVO NASCIMENTO é repórter