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ARTIGO
Terça-feira, 30 de Julho de 2013, 21h:12

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

A maior lição do papa

Hoje, explicitamente, farei o papel de professor. Por isso, de chofre, pergunto: qual foi a maior lição deixada pelo Papa? Como a resposta não é simples, darei um tempo para você, leitor, pensar. Enquanto isso, farei indagações a alguns “cristãos” que veneram Maria, Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Pois bem. Em meu artigo anterior, “De José a Jorge”, estabeleci um paralelo entre os obstáculos das “missões” empreendidas por dois jesuítas: José de Anchieta, no século XVI, e Jorge Bergoglio, transformado em Papa Francisco há pouco. Do paralelo, concluí que a missão de Jorge é mais árdua do que fora a de José. Motivo: Anchieta precisava “salvar as almas dos indígenas”; Francisco precisa salvar alma e corpo da própria Igreja Católica, imersa, consoante princípios do próprio catolicismo, em pecados mortais; por isso, em plena queda livre. Após a publicação daquele artigo, fiquei esperando pelas pedradas; afinal, o fanatismo religioso é tão perigoso quanto qualquer outro. Quantos já não morreram nas “guerras santas”, na Inquisição, nas mãos de religiosos sexualmente desviados? Além do mais, na Universidade, eu já convivera com a ação de fanáticos religiosos, mas de vertente evangélica. E as pedras vieram, claro. Em um dos sites que publicam meus artigos, sem contar os leitores que “curtiram” ou não, quinze assinaram seus comentários, mas cinco foram vetados pelos responsáveis pelo site. Para cada veto, a justificativa era una: “Fulano, seu comentário foi vetado por conter expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas”. Que incoerência! A fé em Deus não possibilita a esse tipo de gente sequer a nobreza para o respeitoso diálogo – aliás, conselho do Papa – com os seus semelhantes, ainda que conscientemente “desgarrados”? Esse tipo de comportamento intolerante não seria pecaminoso para um crente em Deus? Essas criaturas incapacitadas para o diálogo não correriam o risco de perder seu pedaço de céu, justamente comigo? Dialoguemos, pois. E no diálogo, volto à pergunta aos milhões de filhos de Francisco: qual foi mesmo a maior lição do Papa? Resposta: é verdade que Francisco, transformado em Chicão, de tão próximo que se fez do povão, deixou várias, pertinentes e emocionantes lições, sobretudo quando – à lá Marx – apontou aberrações desse “sistema excludente”: o capitalismo, reorganizado globalmente nos moldes neoliberais. Portanto, no plano do conteúdo, Francisco fez até mais do que a Igreja podia esperar e merecia de um Papa. Mas sua maior lição não foi de conteúdo; foi de forma. E não foi a forma como se apresentou: homem simples, temente a Deus e a Maria. Sua maior lição, “resultado de uma aposta pesada”, conforme declarou o jornalista Gerson Camarotti, foi matar dois coelhos com uma só cajadada papal: aliar-se e alinhar-se às Organizações Globo durante a visita. Tal junção – Papa/Igreja e Globo – serviu para: 1º) diminuir a audiência das concorrentes, principalmente da Record; 2º)serviu para tentar a reordenação dos caminhos de tantas ovelhas debandadas para templos de bispos macedos que surgem a cada hora, em cada esquina de um país sem ética, sem educação, sem saúde, sem cultura... Depois da câmera da Globo acoplada ao papamóvel, aquela entrevista “exclusiva”, exibida no Fantástico de 28/07, foi a maior lição, ou a maior das apelações, de uma Igreja que continua atolada em pecados: quando tiver de derrubar o inimigo, faça-se passar por progressista e use todos os meios, principalmente aquele que mais manipula as mentes de um povo tão iludido. Só contradições! *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT

Edição EDIÇÃO 16967




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