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ARTIGO
Sábado, 18 de Abril de 2009, 13h:17

Mário Marques de Almeida

À la italiana

Se a língua de um povo é viva e, como tal, dinâmica e sujeita a incorporar palavras largamente usadas no dia a dia da maioria dos que a praticam, por que o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que foi adotado no Brasil em janeiro deste ano, não segue esse princípio para grafar determinados vocábulos já comuns e tradicionais? Deixo a resposta àquelas muitas pessoas que costumam freqüentar supermercado, mercadinho, padaria de bairro ou feira livre. Antes, porém, indago aos que por ventura me leem: por acaso, já ouviram alguém pedir nesses locais: “Pese 200 gramas de mozarela (ou muzarela)...”? Mussarela, com certeza, você mesmo deve falar e já deve ter ouvido a frase “ene” vezes. Já “mozarela”, convenhamos, está mais para quem compra o produto lá na Itália... Pois é! O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) já em vigor, com a chancela da Academia Brasileira da Letras, a maior autoridade sobre o assunto, ignora a mussarela como forma correta de se referir a esse tipo de queijo. Para o Volp é mozarela ou muzarela, ainda que não sejam assim chamadas pela grande maioria dos que a consomem regularmente. Afinal, pronunciar “mozarela” exige uma entonação de voz à la italiana, semelhante a dos personagens de novelas da Globo quando interpretam o papel – aliás, mais para caricato do que original e criativo - de “oriundi” do país em forma de bota ou descendente em primeiro grau de italianos. Neste último caso, daqueles nascidos e criados em colônias fincadas em serras do Sul do país onde o português não é (ou não era, antigamente) a primeira e principal língua. Entre nós, tupiniquins, o comum é a pessoa encostar o umbigo no balcão da padaria ou na banca da feira, e tascar: “Mussarela!” É assim que se fala por todo canto desse país chamado Brasil, a não ser que você queira imitar o ator Thiago Lacerda, interpretando um falso italiano na novela “Terra Nostra”, e, daí sim, pode entonar à vontade a “mozarela”, com direito a fazer muxoxo com a voz e trejeitos com os lábios. A nova ortografia que surgiu por decreto presidencial, porém com as bençãos da ABL, desconhece a mussarela tão comum e pronunciada por todos (mas, cada vez mais rara na mesa do povão), como uma palavra digna de pertencer oficialmente à Língua Portuguesa e, portanto, merecedora de ser dicionarizada. A mussarela, enjeitada pelos filólogos e eruditos acadêmicos, figura apenas na boca do povo e, na forma de queijo, é consumida, a cada dia que passa, por menos (não confundir, por favor, com a peculiar “menas” do nosso guia e presidente) pessoas. Por sinal, uma pérola, daquelas bem “luladas”, produzida por Sua Excelência, e de fazer inveja ao mestre Guimarães Rosa, criador consagrado de neologismos e novas frases, muitas incorporadas ao idioma, mas sem o impacto da já famosa “menas”... Antes nunca falada por alguém com tamanha investidura. Voltando à marginalizada mussarela, os cultos do idioma só faltaram escrever de acordo com a origem italiana da palavra: “mozzarella”/“muzzarella”. Com dois éles no final, que levam, aqui - com aval ou não dos doutos acadêmicos - acento agudo (para diferenciar do pronome eles). Porque eles são aqueles que deixaram de atentar para o fato de que os milhões e milhões de mortais comuns despojados do nobre fardão acadêmico, apenas solicitam ao balconista: “mussarela com presunto”... Entretanto, o luxo da mistura, não custa lembrar, ocorre apenas quando sobram uns trocados a mais no bolso. E quando estão “rodados”, na pior, os brasileiros atacam de mortadela, mesmo! Dela... da vaca ou feita com carne do boi. A observação é oportuna, por considerar que, com crise ou sem crise, há tempos rola o papo de que não faltam inescrupulosos na praça vendendo espetinho de gato, e isso nos leva a concluir que podem fazer igual ou pior com a mortadela. Da cadela morta ou do cachorro solto pelas ruas, sabe-se lá... MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do site e jornal Página Única

Edição EDIÇÃO 16967




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