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ARTIGO
Quarta-feira, 23 de Março de 2011, 20h:43

NATACHA WOGEL

A hora de parar

Minhas palavras de hoje não são de opinião, mas de solidariedade a um casal amigo que acabou de perder a luta contra o câncer. Seu filho mais novo, Higor, de apenas 15 anos, morreu na noite da última terça-feira, depois de pouco mais de um ano de diversas batalhas contra um linfoma. Ele partiu. Os pais e os outros dois irmãos ficaram e passam a conviver com a segunda e maior dor deste trágico processo degenerativo – a ausência da companhia de um menino cheio de vida, o que agora não passa mais de sonhos. Acredito que todos que têm filhos e os amam, assim como o casal do qual trato e eu mesma, são capazes de sentir um pouco da dimensão do sofrimento que essa família enfrenta. Quantas outras passam por problema semelhante e a gente nem se dá conta sobre a importância de uma palavra, de um gesto, de uma reação de conforto para elas. Passamos “batidos” no nosso dia-a-dia, nas nossas atribulações, dando vozes aos desconfortos, às reclamações, com uma postura egoísta demais para reconhecer que sempre há alguém em situação pior que a nossa. O casal enterrou seu filho ontem. Fui ao velório, assisti os últimos momentos de pai e mãe juntos do corpo do jovem, a despedida, o fechamento do caixão, e em todo momento colocava-me na posição deles imaginando que não exista sentimento pior do que o causado pelo adeus definitivo ao seu próprio filho, aquele que você fez, criou, deu amor, repreendeu quando necessário, vestiu, enfim a quem dedicou praticamente todos os minutos de sua vida desde sua concepção. Repito, não há dor maior. E o pior, ninguém está livre dela. Se há alguma oração no mundo capaz de levar alento, conforto e paz a essa família, que se faça dessas palavras um mantra coletivo, para que ecoe com a força necessária e alcance seu propósito. Se existe algum gesto, conduta ou atitude que torne suas vidas menos duras, desesperadoras e vazias, que seja automática e cotidianamente repetido a cada segundo, a cada piscar de olhos. Gleide e Rosemberg, peço desculpas pela tardia e parca atenção que dispensei à sua história, mas quero muito desejar-lhes a força maior que houver para que atravessem esse momento e sigam oferecendo aos seus dois outros filhos todo amor, luta, resignação e braveza empregados na vida de Higor. Com vocês, aprendi mais uma lição: o quanto é importante estarmos atentos para nos voltarmos àquilo que realmente importa na vida. Sorte, sempre! NATACHA WOGEL é editora de Cidades

Edição EDIÇÃO 16966




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