ARTIGO
Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009, 00h:18
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NATACHA WOGEL
A festa que importa
Foi-se o tempo em que comemorar um aniversário de criança se resumia a fazer um belo bolo confeitado e docinhos brigadeiro e beijinho de coco, encher a casa de balões, distribuir chapéus de festa e línguas de sogra para o parabéns. Aos meus contemporâneos, a memória sobre festas dos primeiros anos de vida se resume a esses artefatos, talvez, acrescidos de enfeites com balas de coco e não muito mais que isso. Hoje em dia, uma verdadeira indústria de festas de aniversário infantis se instalou de tal forma que os próprios aniversariantes, apesar da pouca idade refiro-me a crianças de 2 a 7 anos se recusam a comemorar a data com um simples bolinho, balões para estourar no fim da festa e a presença dos amigos. Pelos eventos, valores altíssimos são desembolsados. As ofertas, também, justificam as cifras cobradas. É possível encontrar nos buffets infantis brinquedos só vistos em parques de diversão, como aviõezinhos mecânicos que sobem e descem, carrossel, bate-bate, dentre muitas outras inovações que não me atrevo nem a mencionar, por medo de não saber o nome exato da tecnologia empregada. Fliperamas já caíram no comum, cama-elástica, então, nossa!, é coisa da época da vovó para a criançada de hoje. A cada festa que os filhos comparecem, as novidades são maiores e as exigências também. Mãe, meu aniversário eu quero naquele lugar... Não, mãe, nesse mais não, naquele outro que tem .... Tenho convivido com estes comentários pelos últimos dois anos e, com eles, o tormento de saber se haverá fundos para realizar o grande acontecimento. Enfim, as lembranças de uma exuberante festa de aniversário eu não tenho. Para ser muito sincera, o acontecimento que mais marcou minha vida foi um que se deu na varanda de minha casa, aos 15 anos, com toda a galera da antiga Escola Técnica, sem nenhum refinamento ou cardápio rebuscado, mas que valeu pela vida inteira, graças à descontração e ao contentamento de ter os amigos reunidos em minha casa, comemorando mais um ano completado. A mesma sensação que tive aos 15 anos espero que minhas filhas, uma delas já tão ligada ao mundo dos megaeventos, aos 6 anos de idade, tenham pelo menos uma vez na vida. E que isso não dependa da satisfação que a indústria das festas possa garantir, mas que seja fruto do esforço dos pais em lhes garantir a comunhão com aquilo que realmente importa na vida: a presença dos amigos e dos que lhes querem bem. NATACHA WOGEL é editora de Cidades do Diário