ARTIGO
Sexta-feira, 10 de Julho de 2009, 20h:24
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ANTÔNIO P. DE CARVALHO
A doença do mau humor
A distimia, também chamada de doença do mau humor, é um tipo de depressão com sintomas leves ou moderados que persistem por pelo menos dois anos consecutivos. Atinge todas as faixas etárias, classes sociais e sexos. Em geral, começa no início da vida adulta. Portanto, se uma nuvem pesada de impaciência e irritação ronda seus dias e nada lhe dá prazer, cuidado! Esses sintomas constantes caracterizam essa doença, que na verdade é um transtorno mental que se manifesta por um eterno descontentamento. Irritação, raiva, cara feia: quem nunca sentiu esse desconforto, essa sensação de explosão iminente? Perder a esportiva quando o carro quebra no trânsito ou quando o craque do seu time de futebol desperdiça um pênalti é normal. No entanto, se este estado de espírito ranzinza for rotineiro, independentemente de ocorrer algo bom ou ruim, o diagnóstico pode ser distimia - ou simplesmente a doença do mau humor. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 3% da população do planeta - cerca de 180 milhões de pessoas - sofrem com esse distúrbio. O distímico tem sentimentos de pessimismo e inadequação, angústia, autocrítica exacerbada, baixa auto-estima, cansaço constante, ceticismo, desesperança, preocupação, não sabe lidar com frustrações, sente-se preterido, rejeitado, raivoso... Desencadeado por um desequilíbrio na atividade química do cérebro, o problema se instala sem avisar. Ele provoca uma mudança lenta de comportamento. O distímico desenvolve normalmente suas atividades diárias, continua trabalhando, porém com baixo rendimento. Não se detecta distimia em exames de sangue, tomografias ou ressonâncias magnéticas. Somente um especialista é capaz de diagnosticar o mal através de uma avaliação psiquiátrica, ou seja, uma averiguação do comportamento de cada pessoa e sua resposta a estímulos. Quem primeiramente pode nos chamar a atenção sobre a instalação dessa doença e nós, é justamente aqueles que convivem conosco e notam mudanças no nosso humor do dia-a-dia. Assim, antes mesmo do psiquiatra, a esposa, os filhos, a mamãe ou alguém próximo poderá e deverá nos alertar dessa possibilidade. A doença surge por vários motivos, entre eles a vivência de situações desgastantes do cotidiano. Se seu início for precoce, ou seja, antes dos 21 anos de idade, ela é considerada hereditária. Quando ocorre mais tarde, está associada a fatores de ordem biológica, física, psicológica ou social. Indivíduos submetidos a estresses constantes, por exemplo, podem adquirir a doença com o passar do tempo. Mas como diferenciar uma pessoa distímica da mal-humorada comum? A resposta vai além da cara amarrada. Aquela que sofre com a patologia não tem capacidade psicológica de modular seu humor - sempre inadequado à situação real e com intensidade e duração prolongadas. Em outras palavras: não depende de força de vontade ou de pensamento positivo. O distímico anda sempre de mal com a vida, mesmo sem motivos aparentes. Nada está bom e tampouco o deixa feliz. Para piorar, são mais suscetíveis a desenvolver doenças cardiovasculares, câncer, distúrbios imunológicos e problemas na sexualidade por falta de libido, alerta a psicóloga Aziran Souza de Magalhães, do hospital Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Também podem apresentar dificuldade de atenção, concentração e raciocínio, alteração do apetite e sono e queixas físicas, como náuseas, enxaqueca, dores nas pernas e estômago, prisão de ventre e diarréias. Quando não tratado, o distímico corre o risco até de morte por abuso de álcool e drogas ou suicídios. "A doença ainda pode evoluir para a chamada depressão dupla, isto é, quando o paciente passa a apresentar quadros depressivos mais graves", diz o psiquiatra paulista Elko Perissionotti. * ANTÔNIO PADILHA DE CARVALHO é advogado, professor e estudante de geografia UFMT