Nesta semana e na semana anterior fiz mais de 10 entrevistas para a matéria de capa da próxima edição da revista RDM. A idéia é traçar um panorama de cenários da economia mato-grossense, mas sob a ótica da chamada crise mundial. Terminei as entrevistas na última sexta-feira. Comecei com a perspectiva de encontrar cenários de velório e falar do enterro numa matéria triste e enfadonha. Ainda não trabalhei todas as entrevistas, os gráficos, as tabelas e as conclusões no texto que vai ser publicado em cinco páginas da revista que deverá circular no fim deste mês. Mas de uma coisa estou bem certo: estou constrangido de falar em crise. Explico melhor: não existe uma crise, quando se entende pela expressão, um fim de tudo. Na realidade, cabe o título deste artigo como a melhor definição para o que está acontecendo e ainda vai acontecer aqui em Mato Grosso. Os cenários não são de fim do mundo. São cenários de transformações. Isso significa dizer que o tabuleiro de xadrez é o mesmo. As peças do jogo são as mesmas. Mas o que vai mudar é a posição das peças sobre o tabuleiro. Se as peças mudam de lugar, mudam também as estratégias do jogo. Por isso, aquela leitura de apocalipse não se justifica de agora em diante, embora lá pelo final do ano passado se justificasse. Os cenários dos desdobramentos mundiais que chegaram e ainda chegarão ao estado de Mato Grosso trarão mudanças muito profundas. A economia de Mato Grosso vem de um passado histórico interrompido na década de 70 pelo movimento de ocupação da Amazônia que abriu uma nova fase de integração do estado ao restante do país. Junto, nasceu uma economia baseada no extrativismo de madeira, de ouro e de diamantes, de pecuária em terras altas e de agricultura extensiva. Mas tudo isso aconteceu sob o manto da proteção do governo federal interessado em ocupar a Amazônia. Foi um tempo que se acabou há mais de 30 anos. No país inteiro, de um modo ou de outro, houve semelhanças naquele período. Hoje, no mundo inevitavelmente globalizado, não cabem mais os mesmos métodos. A crise financeira mundial chega ao Brasil e aporta em Mato Grosso como o fim de um modelo e traz na bagagem o desafio para começo de novos sistemas. Curiosamente, os setores econômicos privados perceberam isso e estão se ajustando. Na última quinta e sexta-feira o pessoal da soja esteve reunido em Cuiabá para se reposicionar diante das novas realidades. Estamos lavando roupa suja, disse-me o ex-governador e um dos diretores da Aprosoja, Rogério Salles. Todas as conversas que tive nas entrevistas voltam-se nessa direção: o mundo mudou e está mudando, e as realidades da produção no estado terão que mudar porque os horizontes são de oportunidades. Mas daí a aproveitá-las completamente pede muito mais ações proativas, esforços estratégicos, raciocínio lógico, gestão refinada e modernidade. O tempo das lágrimas já passou. O mundo vai continuar comendo, etc. Talvez queira fazer isso de um jeito diferente e queira que os produtores disso também sejam diferentes. É um baita desafio! Mas um belíssimo desafio! * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM
[email protected]