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ARTIGO
Quinta-feira, 13 de Março de 2014, 22h:03

SERGIO NEVES

A Copa e a hipocrisia

Locutor esportivo que também sou, eu estava lá na praça 8 de Abril, em Cuiabá, de microfone em punho, entrevistando o povo e autoridades, quando o presidente da Fifa, Joseph Blatter, anunciou a vitória de Cuiabá sobre Campo Grande ficando como sede da Copa do Pantanal. E o cuiabano, nato ou adotivo, explodiu de alegria. Pouco tempo depois escrevi um texto afirmando que a Copa traria dádivas, dúvidas e dívidas, trilogia comum em megaeventos de tal dimensão. E aprendi com meu pai que o combinado não é caro. O Mundial bate às portas e, nesta corrida contra o relógio, seja lá o que Deus quiser e muita fé no "jeitinho brasileiro". De certa maneira, a Copa já resultou em alguns benefícios ao país pondo milhões de brasileiros nas ruas. É verdade que muitos nem sabiam por que estavam lá. Os vândalos aproveitaram a brecha partindo pra quebradeira e pancadaria, uma forma radical e até meio idiota de reivindicar. Mas o Brasil clamou por um futuro melhor, não há como negar. Mas a pergunta é: outros megaeventos populares realizados por aí também não precisam ser melhor analisados? O Carnaval, por exemplo, consumiu R$ 180 milhões de verba oficial em 2013 e nem todas as capitais entraram nesta conta. Daria pra erguer de 3 a 4 mil casas populares. E foi dinheiro injetado somente em estrutura temporária. Cuiabá, você se lembra?, injetou aqueles R$ 3 ou R$ 5 milhões, sei lá, naquela escola de samba carioca. E este ano escolas (as que educam) atrasaram o ano letivo por falta de verba. Não se trata de acabar com a festa de Momo, longe disto. Só que ele é vista como lei, obrigação inserida no calendário. E dá-lhe, verba!, todos os anos. A competição da Fifa é eventual e a última realizada por aqui foi há mais de seis décadas. Então, por que tributar à realização da Copa todos os problemas brasileiros? Cheira a hipocrisia. Eles existem e vão seguir existindo, com ou sem Copa. Resolver questões como saúde, transporte, habitação, educação e segurança é algo muito complexo. Um problema da nação como um todo e com ene interesses envolvidos. Protestos não vão mostrar nada ao mundo do que aquilo que ele já sabe sobre nós. E, com certeza, mais do que nós mesmos. Muitos dos turistas que aqui virão torcer por sua seleção também têm problemas e esperam esquecê-los por algum tempo, curtir e, principalmente, ser bem recebidos. Penso que a última coisa que eles querem encontrar é uma multidão de "malas" fazendo protesto fora de hora. Até porque não sei se muita coisa vai mudar. Quer protestar? Outubro está chegando.... SERGIO NEVES é jornalista em Cuiabá

Edição EDIÇÃO 16967




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