Há muita coisa acontecendo. Uma triste, o desaparecimento precoce de um dos meus 23 leitores, amigo de pré-adolescência, Messias. A última vez que me mandou um e-mail foi quando escrevi sobre a morte de Milton Friedman. Fez-me uma dura e pertinente crítica à muita importância que dei ao economista americano, que para ele seria apenas um seguidor sem qualquer originalidade de Friedrich Hayek. Esperava encontrá-lo em um boteco para digladiar diante de umas garrafas de antártica. Em sua homenagem, enquanto Gustavo mantiver-me aqui, fico impedido de falar deste assunto. Fica valendo a versão dele. Onde estiver imagino-o esboçando aquela cara saudável de gozador. Dedico-lhe este artigo por tratar de economia, assunto que nos reaproximou recentemente. Quando aqui surgia ele retrucava e até elogiou a minha performance algumas vezes. Tem ainda a visita de Bush, fatos novos na Bolívia, o aniversário da Silvânia e a crise na China. Bush não manda nada mais, só tem importância aqui nesta América Latina em pó (Caetano Veloso, lembram-se) e estou de saco cheio da picaretagem deste Evo Morales. Silvânia vai entender e eu a vejo todo dia. A China não é mais importante que ela, mas está todo mundo falando dela e vou nessa também senão fico fora da moda. São duas crises. A americana e a chinesa. Na primeira a China é efeito e os EUA causa e, na segunda, a China vira causa e os EUA e o resto do mundo efeito. O que disparou o processo na China? A imprensa deu que a autoridade monetária chinesa ameaça (só ameaçou) com maior fiscalização o mercado acionário, etc. A ameaça é só essa, mas aonde chegará ninguém sabe. O sistema bancário chinês está para quebrar, como no Japão anos atrás, e que foi salvo por uma operação de socorro do governo. Os motivos serão os mesmos quando vierem. Inadimplência de empréstimos aplicados na expansão econômica. No vizinho era a ingerência do poderoso ministério da indústria e comércio. Na China será a do mais que poderoso Partido Comunista Chinês, que manda em tudo, inclusive no dinheiro do governo. Parte do crescimento do país vem sendo patrocinado por recursos orçamentários e seu destino vem sendo feito buscando setores de alta lucratividade e com forte demanda interna numa reedição tardia da famosa substituição de importações tão modelada aqui na América Latina nos anos 50. Acontece que a escolha das plantas industriais, ou seja, quem leva o dinheiro para investir, é feita por membros do partido, e só para refrescar, lá vigora o sistema do partido único. Quem não é filiado é inimigo e o contrário é mais que verdadeiro. Então não é difícil concluir que existe muito dinheiro colocado em coisa podre e que uma hora vai ser exigido. Sabendo que não existe almoço de graça e que alguém vai pagar a conta, teremos uma crise de oferta com componente financeira e respingos no orçamento federal e principalmente no sistema financeiro internacional. Como banqueiro não perde, repassará as perdas para outras praças contaminando todo o planeta. E se o governo tiver saldo em conta corrente para cobrir este buraco é outra estória e não será a solução do problema. Mesmo se tiver, e deve ter, serão anos para reconstruir o parque produtivo. E a crise americana onde entra aí? Esta tem origem parecida. Inadimplência nos contratos imobiliários americanos. Tenho amigos ganhando dinheiro nesta picaretagem na Flórida. Sabem que vai explodir. Este aviso desta terça é café pequeno diante do que virá. Sobrará pra China. As reservas chinesas estão em um trilhão de dólares. Para se ter uma idéia, o segundo colocado é o Japão, com quase 900 bilhões, e o terceiro, a Rússia, com 300 bilhões. Acontece que estas reservas estão em torno de 60% em dólares americanos. Precisa dizer aonde vai dar isso? E a crise chegará também em todos emergentes asiáticos, todos detentores de grandes reservas com o mesmo perfil e serão intro-alimentados por uma crise regional. Será um estrago do qual nem a Europa com seu euro escapará. E por aqui o que acontecerá? É só fazer as contas. * PAULO RONAN é economista
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