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ARTIGO
Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009, 20h:40

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

A caminho da unanimidade

Quem ainda não repetiu pelo menos já ouviu dizer que a unanimidade é burra. Pois bem. Diante da mais recente pesquisa sobre o desempenho do atual governo, com destaque à figura de Lula, comecei a ficar deveras preocupado com a inteligência deste país. 84% dos brasileiros avaliam-no muito positivamente. Esse percentual é histórico. Estamos, apenas, a 16% da unanimidade. Logo... Sem querer fazer o papel do contrário por mero capricho – o que seria desprezível e infantil – estou entre aqueles que estão retardando a obtenção da unanimidade nas avaliações do governo Lula. Confesso, entretanto, que pertencer à minoria na crítica política não é confortável. Por isso, dessa perplexa minoria, muitos optaram pelo silêncio; afinal, questionar 84% de uma população de quase 190 milhões de pessoas é chamar para si a condenação em praça pública. Mas – mesmo contra a maré – pensar é preciso; e sem paixões. Assim, pus-me a refletir sobre alguns dos motivos que podem estar ajudando na consolidação dessa leitura absolutamente equivocada por parte da maioria de nosso povo. E motivos não faltam para isso; nem é tranqüilo elencá-los por critérios de prioridades. Na verdade, penso que um conjunto de elementos, atuando de forma imbricada, tem dificultado a maior parte da população a ver com olhos mais reais a atuação do governo, destacando – repito – o Presidente. Um dos itens que julgo precedente é a indigência da educação formal que se abate sobre um contingente significativo de brasileiros. O processo de decomposição da educação – que já vem de algumas décadas – começa a dar seus “melhores” frutos justamente agora. O senso crítico de tudo está sendo perdido. O hábito elementar para a solidificação da crítica – que é a leitura – tem sido renegado ano após ano. Muito próximo desse motivo está a grande capacidade de Lula de se comunicar com o povo. Verdade seja dita: se Lula é – em minha leitura política – um dos mais perversos dos presidentes pós-64 para a classe trabalhadora é igualmente o melhor comunicador. Se fosse vivo, Chacrinha que se cuidasse. Nem Silvio Santos consegue vender tanto carnê do Baú da Felicidade como Lula consegue vender ilusões. É incrível! E como consegue isso? Simples. Dentre tudo o que recheia seus discursos, as metáforas populares, buscadas, em geral, no repertório futebolístico e religioso (se Deus quiser, graças a Deus...), caem como um baião-de-dois no estômago vazio de famélicos mil. Numa imagem, é como se o ronco da cuíca abafasse o ronco da fome. E por falar em fome, eis aí outro de seus grandes achados: os programas assistenciais. Esses – que em nada alteram o status quo e muito menos significam qualquer aproximação de redistribuição de rendas – também contribuem para a cegueira crítica que se instaurou no Brasil. Detalhe importantíssimo: muitos dos programas assistenciais são materializados pelo porte de cartões magnéticos. Como eu já registrei, em outros momentos, a uma pessoa excluída do consumo frenético e fútil dessa sociedade, o ato de inserir um cartão em máquinas eletrônicas tem um valor muito mais simbólico do que material. Assim, o conjunto de bolsas (família, escola...) ampliado pelo governo Lula é um avanço – sobretudo, tecnológico – no modo de operaracionalizar a oferta das esmolas “doadas” por antigas primeiras damas de outros rançosos partidos políticos. Assepsia pura. Nem perto de pobre é preciso chegar mais. Na verdade, essa aproximação com o povo se dá por outros meios tecnológicos: o complexo midiático. A mídia, querendo ou não, faz a ponte diária entre o Presidente e a população, a partir da cobertura jornalística que lhe destina. É assim que as referidas metáforas ajudam na identificação de Lula com o povo. Quem diria! Dessa forma, caminha-se rumo à unanimidade. Meu receio é de que em breve apenas algumas linhas aéreas possam ser consideradas “inteligentes” no Brasil! * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Ciência da Comunicação/USP Prof. de Literatura Brasileira da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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