ARTIGO
Terça-feira, 18 de Março de 2014, 21h:04
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BENEDITO PEDRO DORILEO
80 anos do Mixto Esporte Clube
A ânsia de cultura dos moradores da Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá vinha do século XVIII, o da sua fundação em 8 de abril de 1719, com promoção de teatro, encenando 80 peças como Tragédia de D. Inês de Castro ou Zaira, tal como se documenta na obra Teatro em Mato Grosso, do historiador Carlos Francisco Moura, que a UFMT editou em 1976. Na sequência, Cuiabá abrigou diversas instituições de cultura, como a Sociedade Dramática Amor à Arte (1877), e Sociedade Instrução e Recreio (1883), Sociedade Beneficente dos Artistas (1891), a Sociedade Internacional de Estudos Científicos (1889), Clube de Leitura Tiradentes (1907) e Liga Mato-Grossense de Livres Pensadores (1909). Em 1928, moças cuiabanas reúnem-se, sob liderança de Zulmira Canavarros, e fundam o Clube Feminino. A mulher cuiabana era e é culta. Coube a presidência à Hercília Baraúna da Costa Marques, que, do presidente do Estado, Mário Corrêa da Costa, consegue emissão de decreto para declarar o clube de utilidade pública. Jogos eram promovidos, o volibol e o basquetebol; animavam-se em praticar esporte, ouvir boa música, promover saraus dançantes ou sessões lítero-musicais. Exclusividade somente no nome da agremiação, pois os rapazes eram atraídos para as lindas cuiabanas, com vestidos ornamentais modelados pelo espartilho, ocasião em que corações eram seduzidos. O ano de 1940 assinala o esplendor do Clube Feminino, tendo na presidência da diretoria Francisca de Almeida Constantino, a culta e dinâmica Nini Constantino; época em que a Rádio Tupi do Rio de Janeiro transmitia os seus eventos, como o desfile de moda Bangu e concurso de misses. Antes, em 1934, nessa década de ouro da criatividade, a mulher cuiabana queria mais, inconformada com o isolamento da cidade verde. A delicadeza do engenho serviria para justificar perante o Clube Feminino a criação de um segundo, o Mixto Esporte Clube, quando os gêneros masculino e feminino juntar-se-iam num mesmo anseio. Curiosa habilidade da mulher cuiabana para abrir novos caminhos de lazer e esporte. Em 20 de maio desse ano nascia o Mixto, que, neste 2014, perfaz os seus 80 anos de existência, sem nenhuma interrupção de atividades. No casarão do coronel Avelino de Siqueira e dona Maria Luíza Hugueney de Siqueira, situado na rua 7 de Setembro, houve eleição na noite desse dia, da primeira diretoria do Mixto: Presidente Zulmira dAndrade Canavarros; Vice-presidente Carlos Hugueney de Siqueira; 1º Secretário - Delfino Nonato de Faria; 2ª Secretária Balbina Garcia; 1º Tesoureiro - José Hugo Salla; Orador Oficial Raul Santos Costa; Oradora Oficial Maria Alzira Alderet; 1º Diretor Esportivo Haroldo da Cunha; 2º Diretor Esportivo José Rogaciano de Lima Bastos; 1ª Diretora Esportiva Odemar Addor; 2ª Diretora Esportiva: Elza Moreira Barros. Logo, com recursos dos associados, foi adquirido o imóvel na rua Cândido Mariano, onde inicialmente se fez pequena edificação e quadra esportiva. As cores preta e branca foram estabelecidas, tornando-se o time alvinegro para sempre. O hino oficial, compôs Zulmira ao piano, música e letra. Por muito tempo a sua introdução ficou perdida, vigorando partitura provisória, até que Balbina Garcia cantou e o maestro Francisco José Penha a restabeleceu por completo, como consta do livro Egéria Cuiabana (edição 1976) do autor deste texto. Das quadras de volibol e basquetebol em 1940, organizou-se o primeiro time de futebol, com a presença do desportista maior, Ranulpho Paes de Barros. O devotamento de Ranulpho ao esporte de Mato Grosso, sem nenhum desalento, fez dele figura ímpar no Centro-Oeste brasileiro, tendo sido o primeiro presidente da Federação Mato-Grossense de Desportos, consagrado em 1976 por torcedores de times diversos que o homenagearam, aplaudindo-o em pé no Estádio Presidente Dutra. O Clube Esportivo Dom Bosco, o mais antigo, foi fundado em 1925, no Lyceu de Artes e Ofícios, depois Colégio Salesiano São Gonçalo, por iniciativa do sacerdote Ricardo Remetter, presidente de honra, e o coadjutor João Botta na presidência. Outros clubes de futebol contemporâneos do Mixto: o Americano, o Paulistano, o Atlético, e o Operário de Várzea Grande. O amor à camisa é a essência do amadorismo, quando os atletas entregam-se à disputa em eleição ao espírito olímpico, devotando-se ao lazer puramente. A rua Cândido Mariano era tomada de torcedores que ovacionavam o desfile dos clubes, antes da construção do estádio Presidente Dutra, inaugurado em 1953. Quando o Mixto sagrou-se tricampeão em 1949, as competições aconteciam ainda no pequeno estádio do Colégio Estadual, (atual Liceu Cuiabano). O octogenário do Mixto Esporte Clube, neste ano da Copa do Mundo em nosso país, clama por apoio dos torcedores, do poder público, das empresas, para que façam retornar os tempos áureos do futebol mato-grossense. O estádio Governador Fragelli reconstruído deve, além de o futebol, ter vida ativa com jogos olímpicos regionais, festas cênicas e concentrações culturais de música e dança. *BENEDITO PEDRO DORILEO é advogado e ex-reitor da UFMT