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Cuiabá MT, Terça-feira, 16 de Junho de 2026

Primeira Página
Sábado, 06 de Dezembro de 2014, 16h:01

ENTREVISTA

Caro não é fazer obras; é não ter obras

Futuro secretário de Infraestrutura e Logística fala dos desafios do próximo governo, lamenta situação do MT Integrado e pede mais atenção aos projetos

ALLINE MARQUES
Da Reportagem
O empresário Marcelo Duarte Monteiro assumirá a Secretaria de Infraestrutura e Logística a partir de 1º de janeiro e já tem a missão de não deixar obras paradas. Os três primeiros meses são de escoamento da safra e ele tem consciência da dificuldade que irá enfrentar com a situação das estradas, mas seguindo as recomendações do governador eleito Pedro Taques (PDT) realizou um plano de 100 dias com ações prioritárias. Como diretor da Aprosoja, conhece bem os problemas da falta de logística, por isso já adianta que o foco será na qualidade dos projetos, além de dar segurança aos empreiteiros. Também haverá cobrança para cumprimento dos contratos. Outra missão não será nem dar continuidade ao MT Integrado, mas retomar, já que as obras estão paralisadas desde 1º de dezembro por questões orçamentárias. Sem filiação partidária, ele garante não ter pretensões políticas e está focado em cumprir as recomendações do governador, como dar mais transparência à gestão, além de garantir uma administração eficiente. DIÁRIO - O que levou o senhor a aceitar o convite do governador eleito Pedro Taques (PDT)? MARCELO DUARTE - Vejo que estamos num momento muito importante em Mato Grosso e no Brasil, em que todo mundo está clamando por mudanças. As coisas que têm acontecido têm desagradado muito a população, tanto na esfera estadual e federal - corrupção, denúncias e isto gerou em todos uma indignação. E a indignação tem que gerar algum tipo de ação, não adianta só ficar bravo. O voto é uma das formas de fazer mudar, mas algumas pessoas querem um pouco mais e foi a oportunidade que apareceu para mim. Não me envolvi na eleição na questão partidária, não tenho filiação partidária. Recebi este convite e de início foi uma surpresa, não estava buscando, mas após reflexão com minha família, colegas de trabalho, pessoas em que eu confio, entendi que temos de colaborar. Resolvi fazer minha parte, estou vendo isso como uma missão. Sou mato-grossense, sou cuiabano, filho, neto, bisneto de mato-grossense, que tem uma história aqui. E estamos vendo Mato Grosso abandonado, largado, e quando temos uma oportunidade dessa e a capacidade, que eu sei que tenho - apesar de saber que vou ter de aprender muito com as pessoas que estão lá e tenho certeza que têm técnicos formidáveis que serão parceiros e irão nos ajudar -, de poder deixar um legado, uma marca e, principalmente, uma maneira diferente de tratar a coisa pública. Isso é o que o Pedro mais pediu para gente: tratar a coisa pública como ela deve ser tratada. Com ética, respeito, com parceria com a iniciativa privada e gestão, que é a palavra do jogo. DIÁRIO - Quais foram as principais recomendações dadas por Pedro Taques e quais serão as principais ações? DUARTE - O Pedro pediu que nesta transição fizesse alguns trabalhos. Primeiro definir o que vamos fazer e qual estrutura vamos precisar. Neste momento estamos olhando para dentro dos cargos comissionados, estrutura de cargos e salários, a estrutura das secretarias adjuntas, para entender se essa estrutura nos serve para o tamanho da demanda e qual a nossa proposta. Estamos trabalhando com a [Fundação] Dom Cabral nesta estrutura e as nossas discussões já estão avançadas. Mudaremos o desenho de uma forma que na nossa visão e na visão da nossa consultoria ela atenda melhor as demandas do Estado neste momento. Além disso, o Pedro pediu para que fizéssemos um plano emergencial dos 100 dias. E isto é muito forte para nossa área de logística e transporte, porque os meses de janeiro, fevereiro e março serão de safra e chuva, muitos buraco, tanto estradas que rodam caminhões, pavimentadas e não pavimentadas, mas nas estradas também que frequentam carros pequenos de final de semana, que já estão apresentando problemas e colocam em risco a população. Além disso, conversando com o governador, entendemos que é importante focar num plano diretor de logística para Mato Grosso. Este plano vai dar as diretrizes de priorização. Temos um estado que tem hoje uma produção, só de soja e milho, beirando 50 milhões de toneladas e, pelas nossas estimativas, podemos quadruplicar esse número, ou seja, Mato Grosso pode produzir sozinho o que o Brasil produz hoje. Só falta a logística, porque a terra está aí, e falo de terra aberta. Não está em produção porque, além do investimento que precisa ser feito por parte do produtor, deve ter o investimento do governo em logística para não perder mercado como o da China, que a cada ano compra um Mato Grosso a mais de soja. Um aumento espetacular, que tentamos acompanhar e ainda não conseguimos. DIÁRIO - Com relação à estrutura da Secretaria, fala-se muito no enxugamento. Como isso será feito na sua Pasta diante da demanda? DUARTE - Com certeza a redução de gastos é uma das grandes linhas que vamos adotar, mas o gasto com pessoal na nossa secretaria não é gasto que vai priorizar para cortes, afinal de contas não há concurso na nesta Secretaria desde sua constituição, em 1988. É um quadro que precisa ser renovado, e o número de comissionados está adequado à demanda da secretaria. Isto não quer dizer que não vamos adotar outras frentes para economizar em outras áreas. As obras, os custos, a qualidade, aí é o que realmente importa, porque estamos falando de bilhões. Ao longo de quatro anos, estamos falando de R$ 6 bilhões, dependendo dos recursos que serão alocados para nossa secretaria. Aí que está a oportunidade de redução de custo. O orçamento na LOA está em R$ 1,2 bilhão para 2015. DIÁRIO - Quais são as metas traçadas para este primeiro ano? DUARTE - As metas estão sendo traçadas neste momento e isto depende de algumas variáveis como a LDO. O que o governador determinou é que as obras não parem e garanta a princípio a trafegabilidade. Temos o plano de governo que são as nossas principais diretrizes. DIÁRIO - Além de rodovias, há ainda ferrovias e hidrovias, mas Mato Grosso vive de promessas. Como trabalhar isso, principalmente em parceria com o governo federal? DUARTE - É uma demanda nova para a Secretaria. Nós não tínhamos esta visão. Pedro, de uma maneira muito inteligente, entendeu que a logística não se restringe apenas para dentro das fronteias do Estado. Precisamos olhar tudo. Hoje faltam 300 quilômetros da BR-163 para terminar o asfaltamento no Pará e mesmo sem concluir há um fluxo intenso de caminhões subindo. E mesmo com essas dificuldades de atoleiros que ainda existe lá, estão fazendo duas viagens por semana até o Porto de Miritituba, ao passo que se fizesse para os portos do Sul, levariam 10 dias, ou seja, três por mês. Isto tem causado um efeito de redução na pressão do frete do caminhão. O frete tem reduzido e caminhões têm sobrado. É importante que se olhe a logística além do estado. Mato Grosso está numa posição privilegiada, ele tem saída nos quatro cantos do estado. A região Oeste não tem muito potencial de ganho, porque já está bastante explorada, mas tem a hidrovia do Madeira. Cáceres tem o Porto de Morrinhos. Assim que liberado vai atender muito esta região, que produz cerca de 20% a 25% do que Mato Grosso produz. Com conexões rodoviárias que não estão prontas ainda, ligando a Tangará, região de Cáceres, que se tem oportunidade de melhorias, além de BR-070 até Porto de Morrinhos, uma conexão que não está asfaltada ainda. Vai ser mais uma saída Assim pelo Nordeste de Mato Grosso, com a BR-158, uma obra federal, que abre as saídas pela hidrovia de Tocantins, quanto pela ferrovia Norte-Sul. Duas frentes que estão se abrindo. Na região Sul tem a Ferronorte, podendo chegar a Cuiabá. Algumas pessoas que não conhecem falam para quê Cuiabá? Mas se ela vier mais 200 km chegando na capital, estamos dizendo que ela é competitiva até a Nova Mutum, ou seja até o Nortão de Mato Grosso. E quanto mais modais competindo entre si, melhor para quem está em Mato Grosso, seja para produção ou consumo. DIÁRIO - Muitas dessas obras são promessas antigas. Qual vai ser o trabalho para conseguir tirá-las do papel? DUARTE - Estamos fazendo esse trabalho há algum tempo através do Movimento Pró-logística, que nasceu dentro da Aprosoja, e tem exatamente este foco de viabilizar essas obras. Infelizmente, no Brasil, o custo, a burocracia, travam. Agora, com mais este problema de orçamento, o governo federal tem gastado muito mais do que deveria estar gastando e isto irá refletir no andamento das obras. Só que nos últimos anos, os problemas não têm sido dinheiro, tem sido os entraves ambientais, indígenas e de projetos. Com relação à hidrovia do Paraguai, ela está pronta. Os recursos que precisam é asfaltamento até o porto de Santo Antônio das Lendas e a construção do porto, que normalmente é privado. A hidrovia não precisa de investimento, ela está pronta. Precisamos destravar problemas jurídicos. Então esse ponto vamos ter de trabalhar unido. Estaremos com dois focos: o de execução em Mato Grosso e outro em Brasília, para destravar estes processos. O fio da meada a gente já achou: temos um raio-X muito claro do que Mato Grosso precisa e os entraves. A velocidade não ocorre do jeito que a gente quer, mas as coisas estão acontecendo. Já com relação à ferrovia é um pouco diferente, porque estamos falando de um modelo novo e que o governo ainda não se encontrou. Então a Fico [Ferrovia de Integração do Centro-Oeste] depende de investimento privado, e só vai se tiver retorno e segurança. A forma que se propõe através da Valec, que uma estatal, que ainda tem de ser consolidada e isso dificulta. Tenho convicção de que Mato Grosso é grande o suficiente para olhar e resolver seus próprios problemas e é isso que nós vamos fazer. A produção que Mato Grosso tem e pode ter nos faz ter que fazer uma certa conta, e não é quanto custa ter a logística, é quanto custa não ter. Quando começarmos a fazer esta conta hidrovia, ferrovia, vamos ter de mudar a maneira de pensar e levar esta lógica para Brasília também. Custa muito não ter. Quando se fala numa produção de 50 toneladas, que podia ser 200, estou dizendo que economia pode ser muito maior. DIÁRIO - O fato de ser oposição pode atrapalhar a relação com governo federal? DUARTE - Eu entendo que com certeza que se tem um elemento político facilita, porém, dentro desses diversos órgãos que estão envolvidos na logística nós conhecemos as pessoas e entendo que elas têm um compromisso maior que política. Eu não tenho vinculação política e vou trabalhar para Mato Grosso e Brasil. Espero que essas coisas não atrapalhem. DIÁRIO - O que fazer para reduzir a burocracia? Como tirar obras do papel? DUARTE - Um dos pontos chaves nesse processo é no início. No projeto, muitos problemas que temos hoje com relação a aditivos, obras inacabadas, paradas, é porque o projeto é mal feito. Vamos dar uma atenção neste ponto. O japonês gasta cinco anos fazendo projeto e cinco meses fazendo a construção. E a gente gasta cinco dias fazendo projeto e cinco anos construindo com um custo cada vez maior. Isto não é um problema de Mato Grosso, é do Brasil. Este problema está claro, vamos olhar e resolver. Por outro lado, na execução das obras, entendemos que tem de organizar e deixar claro e transparente. O prestador de serviço precisa ser valorizado e tratado como parceiro. Na situação que não tem ordem de priorização de quem vai receber, medição, avaliação do serviço, gera insegurança para os empreiteiros que prestam serviço para o estado que com certeza precisam destes recursos e de uma previsibilidade. Vamos trabalhar de um lado com projeto melhores e menos alterações, e por outro lado trabalhar na execução para que dê previsibilidade para quem está executando e cobrar para que a obra ocorra da forma que foi contratada. Gerar responsabilidade dos dois lados e não essa situação de quem grita mais recebe primeiro. Implantação de sistema que dê transparência. DIÁRIO - E o MT Integrado, como será a continuidade dele? É um programa que não caminha. O que fazer para funcionar? Já tem um levantamento de como está a situação? DUARTE - O que foi inaugurado foi de forma parcial, mas é óbvio que vamos dar continuidade até porque os recursos já estão aí. Temos um levantamento parcial, mas ainda não temos todas as informações, até porque muitos contratos e aditivos estão sendo assinados ainda. Então, um raio-x completo somente depois de estar na Secretaria. O governador deu a ordem de que as obras não devem parar, porém, as informações que a gente tem é que as obras já estão paradas. Já houve uma ordem de paralisação, a partir de 1º de dezembro por questões orçamentárias. Então, vamos ter de retomar. DIÁRIO - Muito secretários utilizam os cargos para se promover. O senhor tem pretensões políticas? DUARTE - Não, nem tenho filiação partidária. Estou preocupado neste momento com resultado e contribuir para que o governador faça história no Estado. DIÁRIO - Como será a relação com os deputados? A pasta de Infraestrutura normalmente é uma das mais procuradas pelos deputados e cobradas também? DUARTE - Eu tenho um bom relacionamento com os deputados. Alguns eu ainda não conheço, mas eu entendo que eles são legítimos representantes de sua região e eleitores e terão atendimento diferenciado lá dentro. Mas vamos implementar é um modelo de gestão transparente, com planejamento e conto com eles para que possamos mudar. Porque este modelo de só apagar fogo, e atuar no urgente, não é um modelo sustentável. Vamos trabalhar para ser mais pró-ativo do que reativo, e para isso conto com a equipe que estará comigo. Eficiência é o nome do jogo.

Edição EDIÇÃO 16963




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