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POLÍCIA
Quinta-feira, 19 de Abril de 2012, 22h:43

SEGURANÇA

Profissão-perigo: médico de policlínica

É cada vez mais comum casos de médicos dos SUS sendo ameaçados por usuários insatisfeitos com o atendimento

JARDEL PATRÍCIO ARRUDA
Da Reportagem
Falta de medicamentos, equipamentos e de gestão. Esses são os fatores mais repetidos quando perguntam quais são os problemas da Saúde em Mato Grosso. Entretanto, esses três têm criado outro, menos lembrado, mas que agrava os demais: a falta de segurança que os médicos enfrentam para poder trabalhar. Há pouco mais de 20 dias, dois homens entraram com pedaços de madeira na Policlínica do Verdão. Aos gritos, eles avisavam que queriam matar o médico plantonista. Dessa vez o médico escapou. O motivo da “quase agressão” ninguém sabe com exatidão, mas todos chutam um: insatisfação com a estrutura da saúde. “As policlínicas estão superlotadas. Muitas vezes as pessoas esperam até seis horas para serem atendidas, e aí o médico atende rápido, sem a devida atenção. Afinal, ele olha para fora e vê uma fila gigante. Aí, não tem remédio ou falta equipamento. E, tudo isso que acontece ali, as pessoas acham que é culpa do médico”, relata a doutora Elza Luiz de Queirós, presidente do Sindicato dos Médicos (Sindimed) de Mato Grosso. Ela explica que o médico é visto como responsável por tudo que acontece nas unidades de saúde, seja um Posto de Saúde da Família, seja uma policlínica ou um pronto-socorro. Por isso, ele se torna o alvo da população. “Já viu o povo reclamar com enfermeiro, técnico ou secretário de Saúde?”, pergunta. Um médico que prefere não se identificar conta como acabou tendo de pedir afastamento por conta de ameaças. O psiquiatra atendia na policlínica do CPA I e sofria com a falta de medicamentos para os pacientes. Até que um dia ele recebeu a ligação do parente de um paciente, ameaçando matá-lo caso ele não conseguisse a medicação. “E essa não foi a única vez. Pedi afastamento e devo pedir exoneração. Para uma policlínica eu não volto”. Segundo ele, seria cômodo poder contar com a segurança de um emprego concursado, mas os riscos não compensam. “Quem não quer um salário garantido e estabilidade no emprego? Vida de consultório não é fácil. Às vezes vem paciente, às vezes não e não tem o que fazer. Temos que trabalhar como dá. Mas para lá eu não volto”, lamenta. Essa falta de segurança acaba sendo um elemento a mais no círculo de problemas enfrentados na saúde: por medo de serem agredidos, os médicos evitam prestar serviços em policlínicas; isso diminui o número de médicos para atender a população, aumentando a fila dos pacientes e piorando a insatisfação da população — o que torna ainda mais arriscado prestar plantão em bairros notoriamente perigosos. Para atrair mais médicos às policlínicas, o secretário de Saúde de Cuiabá, Lamartine Godoy, tenta executar um conjunto de ações que tornem essas unidades mais atrativas. As ações variam de bônus salariais a garantia de medicamentos, mas a medida número um foi a entrega de um ofício ao secretário de Estado de Segurança Pública de Mato Grosso, Diógenes Curado, solicitando a presença de policiais militares nas policlínicas. O pedido ainda não foi respondido. Apesar de bem vinda, a medida é vista como paliativa por alguns. O residente Breno Marcondes salienta que a falta de segurança é oriunda da insatisfação dos pacientes. “PM não tem que estar lá para proteger o médico da população. É preciso solucionar os problemas na raiz”. Ao mesmo tempo, outros ressaltam a importância da segurança, ao menos momentânea. “Acho que essa medida uma alternativa, enquanto não se resolvem esses problemas, é muito importante”, disse Thadeu José Latorraca, outro residente. Ele conta que já foi abordado pelo pai de uma criança que tentou obrigá-lo a atender o filho, mesmo ele não sendo pediatra.

Edição EDIÇÃO 16962




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