ILUSTRADO
Terça-feira, 15 de Julho de 2008, 20h:36
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PATRIMÔNIO
Xinguanas na cabeça
Projeto da Ipeax que preserva duas áreas indígenas sagradas da mitologia xinguana recebeu o Prêmio Rodrigo Franco Melo de Andrade
O projeto de tombamento e preservação de duas áreas indígenas sagradas do Alto Xingu (MT), conduzido pelo Instituto de Pesquisa Sócio-Ambiental do Xingu (Ipeax) com o apoio da Pequena Central Hidrelétrica Paranatinga II, da Atiaia Energia, acaba de ganhar o Prêmio Rodrigo Franco Melo de Andrade, na categoria Apoio Institucional e Financeiro, promovido pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O julgamento da premiação, considerada uma das mais importantes na área de proteção ao patrimônio cultural e histórico do País, foi realizado no último dia 26, em Brasília. Organização não-governamental composta e dirigida por índios do Alto Xingu, o Ipeax contou com o investimento da Atiaia Energia - empresa especializada em implantar e operar PCHs - para o desenvolvimento das pesquisas que localizaram, identificaram e delimitaram os sítios sagrados Sagihenhu e Kamukuwaká. Os estudos mobilizaram, durante mais de um ano, uma equipe multidisciplinar de 21 antropólogos, arqueólogos, historiadores e engenheiros ambientais. De acordo com as pesquisas, o Sagihenhu está localizado no Rio Culuene, na corredeira conhecida hoje como Travessão do Adelino, a 7 km abaixo da Pequena Central Hidrelétrica Paranatinga II, da Atiaia Energia que começou a gerar energia em fevereiro deste ano, beneficiando os municípios de Gaúcha do Norte, Querência do Norte e Ribeirão Cascalheira, além da região do Vale do Araguaia. Segundo a memória ancestral dos indígenas, neste sítio sagrado teria ocorrido o primeiro Kuarup, celebração realizada para elevar o espírito após a morte de algum membro reconhecido pelas nove etnias do Alto Xingu. Já o Kamukuwaká, ritual que marca a transição dos adolescentes para a fase adulta, foi localizado numa caverna no Rio Batovi, próximo aos limites do Parque Nacional do Xingu. Além de desenvolver e implantar diversos programas sócio-ambientais, atendendo rigorosamente todas as exigências dos órgãos competentes, a Atiaia Energia decidiu também investir na preservação da memória dos povos alto-xinguanos. Esses sítios não são importantes apenas para os índios, mas fazem parte da história e formação da nação brasileira, ressalta o diretor de Operações da Atiaia Energia, Manuel Martins. Com a parte técnica do projeto executada pela Documento Arqueologia e Antropologia, as pesquisas foram acompanhadas de perto pelo Iphan e pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Segundo o secretário do Ipeax, Ianacolá Kalapalo, a ong tem organizado a participação dos representantes dos povos Kalapalo e Waurá nas pesquisas. Essas etnias detém a memória do Kwarup e da festa da furação da orelha, respectivamente. Essas áreas têm um profundo significado para nós. O tombamento delas representa guardar os lugares na terra que dão vida à nossa memória e que ficaram de fora da delimitação do Parque Indígena do Xingu. Dos 17 projetos inscritos pelos estados de Mato Grosso, Goiás e Tocantins, apenas seis foram selecionados para a etapa nacional do Prêmio Rodrigo Franco Melo de Andrade. Ao todo, concorreram 236 trabalhos de todo o País em sete categorias.