ILUSTRADO
Sábado, 18 de Agosto de 2012, 14h:12
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CONVERSAÇÃO
Viagens em torno dos fazeres artísticos
O artista plástico Sergio Lucena e o poeta e colaborador do DC, Floriano Peixoto, prosseguem o diálogo iniciado no domingo passado, e que vai se estender até o próximo
Lorenzo Falcão
Da Reportagem
FLORIANO MARTINS: Um bom leitor de poesia, o ensaísta Ricardo Llopesa, ao ler poemas meus mais recentes me escreveu dizendo o seguinte: Ao ler tua poesia ela produziu em mim uma grande surpresa pela dificuldade da escritura, que leva consigo uma fácil interpretação do texto, observado do ponto de vista filológico e intelectual. Falta amor à palavra na poesia moderna e a poesia é palavra e som, como a música em inglês. Empenhamo-nos em ser latinos e não poetas. E esse amor pelo latinismo não é mais do que um desejo de fazer confissões. Há aí uma crítica ao provincianismo e seu mecanismo de despersonalização de toda uma cultura. E há também a indicação de que o amor é a chave. Amor aqui em seu sentido mais intenso de força motriz de nossos mais mínimos impulsos, magma em que nos descobrimos o que somos, o caminho que devemos tomar, as apostas que devemos fazer. Casa de força onde se nutrem a pedra e o livro. Graças à dedicação com que definimos nossa relação com o mundo é que vamos construindo as lâminas sagradas de uma poética, de uma plástica. Este vislumbre da atemporalidade e do infinito que vês na obra de Monet, por exemplo, ele se sentirá ainda mais forte quando despertado por uma presença tanto física quanto inesperada, a descoberta aparentemente casual de um pequeno objeto na paisagem ou de um recorte de cena em um painel mais amplo. Olho por diversas vezes uma foto que fiz, vejo ali todo o cenário do atelier de um pintor em sua desordem característica, a rigor em sua ordem singular, e a foto não me seduz ao ponto de revelar o que intimamente busco. De repente, como que por acidente, aponta em minha direção um vidro sobre uma prateleira, com uma figura recortada em papel e colada como se fosse uma etiqueta. Ali está a foto. Amplio o objeto e agora sim, posso finalmente conversar com ele e juntos descobrirmos o caminho que devemos tomar. Com o tempo percebo a presença de um obstáculo (um adjetivo, um verbo, uma imagem ou mesmo o bailado do verso na página) ou que a ideia central havia pousado no celeiro errado. Às vezes uma pequena troca de posição do verso ou então a transferência daquela ideia para uma outra instância, iniciando outro poema a partir dela. O detalhe é que essas pedrinhas mágicas são todas cada vez mais intensamente definidas por sua conexão vital com a realidade, com o cenário visceral daquela experiência que nos singulariza. Não cabe a dissecação do cadáver alheio. Uma vez liberto das armadilhas do ego, Arte é mesmo auto-retrato. E não pode ser outra a fonte do que Llopesa chama de amor à palavra. Curiosamente O amor pelas palavras (1982) é título de um de meus primeiros livros. A mesma relação vale para a estrutura dada a um livro ou a uma exposição. Definir como os poemas se atraem e juntos formam este outro objeto artístico que é o livro. Definir idêntico movimento nas fotos, suas dimensões, suportes, localização no espaço cênico da mostra, que é também um objeto artístico em si. Como a cenografia compõe o palco onde se apresenta música, dança ou peça teatral. A soma é este outro objeto a que me refiro. Noto que em geral poetas desconhecem este princípio e apenas avolumam poemas nas páginas, sem uma compreensão estrutural do livro. E para completar a leitura do crítico nicaragüense, sua relação estabelecida entre a dificuldade da escritura e a facilidade da comunicação, este equilíbrio é também o que busco em minha própria vida. Delicadeza e sofisticação do espírito expresso em gestos que inspirem confiança e afinidade. Eis o poema, o livro, a foto, a exposição, a vida. SERGIO LUCENA: Jogo amoroso bela expressão, capaz de nos apontar a qualidade do que é real. A realidade, qualquer que seja, é abstrata em sua natureza e concreta na sua configuração. Abençoada é a sua propriedade quando confirmada no mundo. Poucos sabem que se deve a este jogo. Se ao olhar para uma pintura de Morandi eu enxergasse uma garrafa, não seria Morandi quem é, ou, não seria eu quem Eu Sou? Aqui nos deparamos com um divisor de águas: o Morandi é o Morandi, aquele que, dizem, pinta garrafas. Os espectadores da sua pintura se dividem entre os que veem garrafas e os que veem a si mesmo. O primeiro grupo compartilha do tema com o artista, o segundo compartilha da essência das coisas contida na parábola travestida de tema. Este dado corresponde ao observado em relação à tua poesia pelo ensaísta Ricardo Llopesa, em comparação a um maneirismo que ele diz não passar de um desejo de fazer confissões. Como bem notastes, uma crítica feliz ao provincianismo e uma anotação sobre o amor como elemento chave da comunicação plena. Por ser Morandi único é que se torna em pedrinha mágica para ti, para mim, para qualquer um que busque o seu único e possível caminho. Pedrinha mágica, pedra cristalina, cristal, espelho. Arte é auto-retrato sim, e por sê-lo não pode ter relação com o ego, mas com o tal jogo amoroso que nos diz: Eu Sou Você. Tua intuição fala do teatro como uma perspectiva à tua expressão, me parece que tua sina é uma Ópera, quero dizer, me parece que tua demanda requer uma grande fusão, carnaval e quarta-feira de cinzas, uma busca por totalidade, completude, inteireza, vida. É isto o que me vem certamente por encontrar nesta perspectiva eco à minha própria demanda em relação à pintura. Venho buscando, Floriano, algo que não cabe em mim, na verdade, Sou Eu que ainda não caibo em mim
Preparo o terreno da solidão, da comunhão. Isto eu vi em Monet, eu vi o que eu ainda não sei, mas, Sou. FLORIANO MARTINS: Eu considero a existência de aspectos que podem até ser vistos como modestos, mas que são em muitos casos decisivos. Comecemos pelo engodo entre criação e produção. Alguns mecanismos de produção da arte foram facilitados pelo avanço tecnológico. Um desses casos é o do registro fonográfico. Outros, no entanto, a cada momento criam, em nome de uma sofisticação material, obstáculos impeditivos de sua realização. Aqui o melhor exemplo é o cinema. Acrescente-se a isto o aspecto da difusão. Por mais que se diga que a Internet há alterado entendimento e prática dos meios de difusão, a verdade é que seu poder de atuação ainda não se iguala ao de veículos como rádio e televisão. Não podemos ser simplista ao ponto de achar que é suficiente pintar uma tela ou escrever um poema. Sem a exposição ou o livro, nossa criação não existe. Sem sua devida circulação ela não comunica. Se acaso tiver que salvar alguém salvará então unicamente ao criador, o artista. Se pensarmos que o tempo cura todas as feridas e que a arte que for consistente atravessará qualquer zona de conflito, teremos caracterizada uma situação no mínimo curiosa: somente a arte medíocre se comunica com seu próprio tempo. A história de certa maneira afirma o que estou anotando. Porém cria um pequeno monstro, o da presunção facilitada pela ausência de comunicação. Temos aí um verdadeiro império de artifícios, onde elegemos a arte de maneira a satisfazer o bom entendimento do manual de truques, aquela que se adapte melhor aos ardis de seu tempo. Caem por terra a ponte, o deserto, o sentido de entrega e a postura sacerdotal. Em uma sociedade com gravíssimos problemas nas áreas de educação e cultura como o Brasil, adaptada ao longo de sua história para atuar ao sabor das conveniências e fisiologismos, os aspectos aqui referidos operam na construção sistemática de um profundo desastre, dilema até aqui não percebido ou criminosamente rejeitado por parte da quase totalidade de nossos artistas e intelectuais. Evidente que estou de acordo contigo em um plano filosófico e mesmo estético. Mas podemos refletir um pouco acerca dos danos diretos à cultura, a extensão de seus acidentes, o inventário do que ainda é remediável e, sobretudo, a quem interessa que a situação assim se mantenha. Por onde começamos? SERGIO LUCENA: Começamos pelo princípio: primeiro que as questões que levantas não são modestas, são graves, e, portanto, tem influência sobre o cenário da produção cultural. Este é um dado, o outro é o que eu penso. Não considero simplista a ideia de que é suficiente pintar uma tela ou escrever um poema. Naturalmente não estou falando de uma única tela ou poema, mas de realizar uma obra. Considerando estas duas faces, a do contexto social e a da expressão criativa individual, o que temos de concreto é o fato de uma realidade última manifesta a partir do encontro entre a obra e o seu público. Como este encontro se configura, o impacto que se dá no público e no artista, este acontecimento, me parece é o tema que nos interessa observar. A meu ver este encontro independe das tecnologias do momento e do esquema de distribuição e difusão da produção em voga em qualquer época. O que não impede que possam ser empregadas, tanto as tecnologias quanto os tais esquemas da hora, e que muitas vezes tal emprego é o que se dá e é o que deve ser. De fato, o emprego dos meios vigentes de difusão e distribuição não necessariamente desqualifica ou qualifica a obra. Porém, a necessidade imperativa deste emprego como uma condição para o reconhecimento ou valoração da obra, isto sim, aponta uma fraqueza. Em algum momento aquilo que contém substância será alvo dos esquemas, será interessante ao mercado, será necessário à cultura. Por que isto não pode se dar no tempo mesmo em que a Arte é produzida? Eu acho que pode se for para ser. Então chegamos ao cerne da questão que colocas: o embate entre o mundo contingente limitado e limitador, com o mundo imponderável, mágico e desconcertante da Arte. Creio, meu caro amigo, que em Arte, como na vida, tudo pode acontecer, e como o tempo da Arte e da vida independe do nosso pobre querer, ele pode aparentar extenso ou não, isto é absolutamente relativo. Parece-me que toda frustração advém de uma necessidade de controle e aqui reside a extensão do tempo. Como na Arte e na vida o controle é apenas um desejo vão, o tempo passa a existir conforme nossa escolha. Se escolhermos controlar ele parece se estender ao infinito; se decidirmos por deixar solto o tempo simplesmente desaparece. Esta escolha nunca é fácil, pois somos acostumados a só valorizar aquilo que nos impõe esforço, até o que nos massacra, nunca nos lembramos de valorizar o que nos libera, é como se isto implicasse em alguma lascívia, alguma fraqueza de caráter. Mas é exatamente este o ponto onde as coisas podem surgir na Arte e na vida, este lugar interstício entre o dever e a leveza. Fazer tudo o que está ao alcance honestamente é o grande compromisso e o único, e em seguida liberar, entregar aos céus, deixar que seja o que for para ser. Neste sentido creio que toda ação é valida, o uso de todos os meios são válidos, conquanto que isto não esteja atrelado a um resultado pretendido. Isto pelo simples fato de que nenhum resultado em Arte ou na vida pode ser previsto conforme um pequeno querer. Quando vemos ações construídas para alcançar um fim claro e determinado, fique certo de que o que está em jogo não é Arte; tão pouco é vida. Sua colocação de que somente a arte medíocre se comunica com seu próprio tempo é verdade em qualquer época. O que não é verdade é que só exista arte medíocre. O que muitas vezes pode ser visto como arte medíocre é o resultado da natural massificação de algo que um dia foi denso, profundo e sofisticado. Assim como vemos hoje a luz de estrelas que apagaram há milhões de anos, recebemos informações elaboradas também há muito que nos chegam hoje numa forma palatável, não necessariamente porque tenham perdido seu conteúdo rico, mas porque nos capacitamos ao longo das gerações para assimilar seu conteúdo com naturalidade. Creio, Floriano, que tudo ocorre é sincrônico, não há porque buscar solução em algum manual de truque para adaptar o fazer artístico ao possível entendimento da época. Isto também é uma busca de controle. Os problemas estruturais da sociedade não podem determinar o sucesso ou fracasso da comunicação da Arte, não podiam antes quando as coisas eram ainda mais duras, menos hoje quando há efetiva possibilidade de um diálogo multicultural, uma miríade de possibilidades está surgindo no campo da comunicação via tecnologia. De maneira que esta visão sua, embora lógica, até sociológica de o contexto determinar as condições e o resultado, pode não ser mais válida. Você, eu ou quem quiser, pode optar por outra lógica. A minha opção é deixar ser, a demanda espiritual da época determina o que deve ou não acontecer. Como artista, tento deixar-me reger unicamente por minha intuição, busco atender minha demanda individual e realizar aquilo que me cabe e pertence, o que me leva a não dar mais crédito ao contexto do que a mim mesmo. Nisto reside o deserto, aceitar a solidão e se bastar com ela. Sob este ângulo entendo que buscar o encontro consigo mesmo é a forma de o artista comunicar-se com o seu tempo e com o tempo universal. Por fim digo, sobre a gravidade da questão por ti levantada, que a ação externa capaz de inviabilizar a difusão de uma Arte substancial não existe. O grave, e que me parece ser algo recorrente, é a postura de muitos artistas frente ao seu papel no mundo. Quando se valoriza o ser aceito acima do cumprimento do dever não temos mais artistas, temos lacaios apenas, ansiosos por migalhas. Desta seara o que de substancial pode advir? FLORIANO MARTINS: Eu creio que temos um dilema entre o artista incompreendido e aquele que é intencionalmente descartado. Há de um lado a magia da criação, que situa o artista como um ente destinado a antecipar algo. De outro, sociedades que evoluíram na direção da manipulação de valores. Evidente que temos aí um contraste, modulado pelo surgimento de artistas que foram aprendendo a lidar com os mecanismos dessa tecnologia social. Regimes políticos em toda a história da humanidade tanto esmagaram a repercussão de manifestações artísticas legítimas quanto criaram janelas de sobrevivência para medíocres e oportunistas de toda ordem. Evidente que a grandeza de uma obra não está marcada pelo fato dela ter sido esmagada por um sistema político ou por haver sobrevivido ao mesmo. A questão é que apenas uma delas é parâmetro para a leitura, crítica ou afetiva, do ambiente artístico de um ou outro momento. Em momento algum fiz referência ao fato de que deva o artista agilizar truques que permitam a compreensão de sua obra. Posso até me divertir com alguns desses truques. O truque de Duchamp é o mais famoso no século XX. Tão eficaz que desnorteou o mundo todo e gerou um sem número de mediocridades estéticas que a crítica não soube frear por absoluta incompetência. Culpar Duchamp? Jamais. Deu um cheque-mate na arte de tal forma que ainda hoje não nos recuperamos. Não adianta falar em Picasso, Dalí, qualquer outro nome ou circunstância. Duchamp literalmente derrotou a arte. Einstein de alguma maneira derrotou a ciência. E a papisa Johanna derrotou a religião. Desde então, o que cada uma dessas zonas de evidência humana faz é tentar recuperar-se. Veja que me refiro à arte como sendo definida pelo ambiente plástico. O que quero dizer é que na escrita ou música não tivemos ninguém que tenha sido tão radical quanto o foi Duchamp. E creio firmemente que até hoje protelamos a discussão em torno deste tema. Apontamos a esmo para um alvo comum, o mercado, sem propor nada que contraste a atuação dessa força inimiga da arte. O Estado tem sido mais inimigo da arte do que o mercado. Porém os artistas em muito se utilizaram do Estado para alcançar um mercado. Discutir se há um papel do Estado ou do artista é um gesto inocente. Nem Estado ou artista reconhece tal papel. A arte é uma menina tão solitária que desconhece se é fruto do sonho ou da vigília. Gentilmente te peço: não creias na ansiedade a não ser como elemento de derrapagem entre o mundo e outro. Sinceramente não consigo identificar em uma exceção que seja aquilo que chamas de plenitude comunicativa da sua expressão, mesmo que pensemos em outros países, sem os desníveis assombrosos que existem no Brasil entre estética e circunstância. Este é o ponto essencial, o da fundação estética de uma obra. Acho que poderíamos aqui tocar nessas instâncias, o que pensamos um do outro acerca da forma com que nos apresentamos ao mundo. O que te parece se comentamos um pouco a respeito do trabalho um do outro? SERGIO LUCENA: Há uma sentença alquímica que diz: a Arte não tem inimigos a não ser a ignorância. Desde que a conheço, já há bastante tempo, nunca a perdi de vista. Foram anos para realizar o contido nesta frase. Ainda hoje ela me desafia e ilumina. Picasso observou certa vez sua preocupação com a demolição da arte acadêmica, indagando: sem ela ao que iremos nos contrapor? Pois bem, em minha opinião o grande paradigma que é o Duchamp se define por meio de uma ação muito inteligente e ardilosa. Ele não derrota a arte, como afirmas, diante os gigantes que o antecederam, Cezanne, Gauguin, Van Gogh, e os gigantes seus contemporâneos, Matisse e Picasso, ele reconhece sua incapacidade em compor com este time e assume sua grande aptidão para jogar xadrez. O que chamas de xeque-mate é de fato uma belíssima jogada. Com ela ele cria a situação que permitiu o retorno da arte acadêmica ao cenário. Ele era tão consciente disto que em dado momento encerrou sua carreira artística e declarou que agora era com os jovens, ele iria jogar xadrez. O grande mago Duchamp fez uma jogada que reverbera até hoje sem que ninguém compreenda sua mágica. O resultado disto é que a arte acadêmica pôde, ao longo dos últimos cinquenta anos, retomar o posto que detinha antes de ser destituída do trono de única arte válida pelos movimentos iniciados no século XIX e que vieram a triunfar nos primórdios do século XX. Ou seja, Duchamp propiciou a contra revolução. Hoje vivemos um neoacademicismo, o que na visão do Picasso é de grande valia, temos novamente ao que nos contrapor. Vejo neste processo pendular o caminho da depuração, do amadurecimento. Enfrentar esta nova academia hoje tão bem equipada e formalizada, repleta de artistas doutores a nos afogar com tantas teses, obras de mestrado, obras doutorandas, tudo respaldado pelas maiores autoridades da semiótica, da filosofia, subsidiados pelas instituições culturais todas elas ocupadas por ideólogos oriundos das universidades, enfim, isto é o que se pode chamar de desafio. Este é o legado de Marcel Duchamp que, por sua vez, esconde outro legado, este sim valoroso. Duchamp é maior do que se imagina. Sua jogada de mestre deu-nos a oportunidade de realizar algo realmente novo, algo sem referência causal, ele nos lança diante do ponto de mutação. Duchamp não deixou pedra sobre pedra, de maneira que o porvir será um novo Renascimento, já em curso, eu diria, e não vem da academia. O movimento é espiralado, Floriano. Voltamos sempre ao mesmo lugar, porém numa volta acima. O mercado não é inimigo de ninguém, ele só quer saber o que vende, não faz juízo de valor. O Estado é um atraso para o artista, um paquiderme ruminante, tolo o artista que dele espera algo, em verdade tolo o artista que espera o que quer que seja fora dele mesmo. É isto o que venho tentando lhe dizer. Repare que em qualquer tempo, tanto na pintura quanto na literatura, entra em cartaz e é louvada alguma noção fundamental falsa, um modo falso de se expressar, um maneirismo qualquer. Os fúteis, os sedentos por reconhecimento se esforçam para se apropriar de tal noção e exercitar tal modo. Poucos são inteligentes para reconhecer isto e optar por se manter fora de moda. Eu penso diante desta realidade que aquele capaz de manter uma postura comprometida com a sua própria percepção de valor, seu próprio fundamento, propõe algo desconcertante. Este que para muitos será tido em seu tempo como um ingênuo, na verdade tem na ingenuidade sua indumentária de gala, aquela veste impecável como é a nudez para a pureza. Entendo sua indignação, ela é justa, eu é que resolvi olhar por outro ângulo, desisti de me contrapor nos termos do mundo e optei por seguir um caminho invisível e sem volta, um caminho que pode perfeitamente ser classificado como de alienado, mas que para mim é justo o oposto. Falo do caminho do meu pensamento que me pede a expressão mais pura e clara, mais segura e concisa possível, que tenha na simplicidade sua maior qualidade estilística. É do pensamento lapidado pelas contradições, purificado pelas dúvidas, revivificado na escuridão que o estilo recebe a beleza. O mundo sofisticou-se, sua indiferença, sua frieza, seu cinismo, tudo está mais aplainado, diluído, sutil, mas nem por isso menos cruel. Ao contrário, o desafio hoje é bem maior que quando sabíamos diferenciar as coisas. A ideia de propor algo que contraste com esta situação só é viável se não for uma atitude reativa. Qualquer reação é inócua, pois se reporta a algo que não mais existe: as diferenças, o bem e o mal, o preto e o branco
Para mim a única ação possível é a oração, e orar é fazer o trabalho. A experiência autêntica e pura, que é a natureza da arte, dura até que ela chegue ao ponto de se tornar em obra, ali se petrifica e de alguma maneira está morta, contudo é quando se torna indestrutível como as plantas e animais petrificados ou como o diamante no instante de sua cristalização. Morre e nos liberta, passa a existir para os outros ao deixar de viver em nós. Sempre percebi a arte como uma experiência amorosa cuja maior alegria é servir ao outro por amor a si mesmo, amor por ser livre, amor por mais um dia e do gostar de morrer dia após dia, o amor pela morte próxima, amor pelo desconhecido. Quando falei da postura dos artistas, da ansiedade, falei de mim e para mim, porque tenho muitas fraquezas, carências, deparo-me todos os dias com o desafio de suportar a possibilidade de não estar à altura. Tudo isto me cria ansiedade e é com ela que aprendo um pouco mais sobre viver e morrer. Não posso reclamar. Também a ansiedade é uma excelente mestra ao mostrar que não tenho resposta para nada, e que, portanto, devo valorizar o prazer da busca, a confiança no sonho, essa fé que converte a substância em realidade, esse gosto pela pintura. Tenho vergonha de mim quando me pego triste ou decepcionado com as coisas do mundo diante do tanto de que disponho, do quanto me é dado hoje em troca do não saber o amanhã. Agora me deixa dizer uma primeira observação sobre tua escrita. Tu representas uma antiga e permanente tradição literária, aquela cuja fonte inesgotável é a alma, cuja musa é a anima. OBSERVAÇÃO: A conversação entre Floriano Martins e Sergio Lucena prossegue até o próximo domingo, quando será editada sua última parte