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Cuiabá MT, Domingo, 21 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 28 de Agosto de 2010, 12h:12

LITERATURA

Uma obra entre a realidade e a ficção

Livro transita entre vários estilos sem deixar que as fronteiras entre eles se tornem nítidas. Leitor não sabe onde está pisando - se em uma biografia, ou um ensaio

Acaba de chegar às livrarias o mais recente livro de José Castello: Ribamar. Autor de João Cabral de Melo Neto: O Homem sem Alma, ensaio biográfico sobre o poeta pernambucano, Castello experimenta, dessa vez, um caminho híbrido, que mistura vários gêneros literários. Transita, assim, entre vários estilos - sem deixar, contudo, que as fronteiras entre eles se tornem nítidas. O leitor nunca saberá ao certo onde está pisando - se em uma biografia, ou um ensaio, ou um relato de viagens, ou se em uma ficção. O livro parece ser uma biografia do pai do autor - José Ribamar (1906-1982) -, mas não chega a ser, pois alterna algumas histórias reais com muitas outras inventadas, ou, pelo menos, livremente recriadas. A fronteira entre a verdade e a invenção nunca se revela. É, em parte, um relato da viagem a Parnaíba, Piauí, cidade onde seu pai passou a infância e a juventude. No outono de 2008, o próprio José Castello fez uma viagem à cidade, experiência que lhe rendeu uma infinidade de notas. Não viajou a Parnaíba, porém, com o desejo de reconstituir a verdade, mas sim para encontrar materiais que lhe servissem para uma ficção. Se Ribamar é um livro de viagens, é um estranho livro de viagens, escrito não para mostrar, mas para esconder. Também é, ainda em parte, um ensaio sobre Franz Kafka, em particular sobre Carta ao Pai - longa carta que o escrito escreveu a seu pai, Hermann Kafka, com a intenção de fazer um balanço da difícil relação entre os dois. Ao contrário dos ensaístas, porém, o objetivo de Castello não refletir a respeito da obra de Kafka, mas usá-la como um instrumento para pensar sua relação com o próprio pai, Ribamar. O romance tem uma estrutura musical. A base é uma canção de ninar, que Castello batizou de Cala a boca, música com que seu pai o embalava quando ele era bebê. Transformou a partitura desta canção de ninar em uma estrutura matemática - e sobre ela armou sua narrativa. Cada capítulo corresponde a uma das notas musicais da melodia. O tamanho de cada capítulo varia segundo a intensidade de cada nota. A cada nota, ainda, corresponde um tema específico (a viagem a Parnaíba e o livro de Kafka, por exemplo). Ao fundo de Ribamar, uma melodia inaudível se desenrola. O romance é, na verdade, uma combinação de oito temas, expressos nas sete notas musicais elementares, mais a pausa. José Castello nasceu em 1951, no Rio de Janeiro, e é Mestre em Comunicação pela UFRJ. Colunista do suplemento Prosa & Verso, de O Globo, mantém um blog, chamado A Letretura na Poltrona, hospedado no site do Globo On Line (www.oglobo.globo.com/blogs/literatura). Foi repórter da revista Veja, chefe de redação da Isto É e editor do caderno Ideias do Jornal do Brasil. Foi, ainda, cronista e repórter literário de O Estado de S. Paulo. Atualmente, escreve crítica literária regular para as revistas Bravo! e Época, além do Valor Econômico e do jornal mensal Rascunho. É autor de Vinicius de Moraes: O Poeta da Paixão, que recebeu o Prêmio Jabuti, Vinicius de Moraes: Uma Geografia Poética e Na Cobertura de Rubem Braga. Seus livros mais recentes são Inventário das Sombras, o romance Fantasma, que em 2002 mereceu Menção Honrosa do Prêmio Casa de las Américas, de Cuba, João Cabral de Melo Neto: O Homem sem Alma e A Lteratura na Poltroina. Em 2003, foi dedicado a ele um volume da série As Melhores Crônicas de..., organizado pela crítica literária Layla Perrone-Moisés.

Edição EDIÇÃO 16967




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