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Cuiabá MT, Terça-feira, 16 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014, 21h:10

LITERATURA

Torradas com manteiga e mel

Rafaella Elika Borges
Especial para o DC Ilustrado*
Três horas e quarenta e sete da manhã, ali estava eu, atrás de um balcão de mármore preto, que reluzia o candelabro do teto de aparência barroca e afortunada. Meu expresso à vista em cima de um lindo guardanapo branco de algodão egípcio, novecentos fios. Terno preto, mocassins italianos e um crachá medíocre com meu terceiro sobrenome abreviado, essa era minha vida... Aguentar ricos esnobes e gente arrogante, ser subserviente da burguesia e dos capitalistas, eu até gostava de ficar a madrugada toda tomando meu café e lendo o jornal, cadastrando sobrenomes difíceis e sendo ignorado por quem os tem. Podem me chamar de louco, mas eu gostava, afinal, foi para isso que fiz hotelaria ano passado, para ver gente mesquinha enganchar a bolsa na porta giratória da entrada do hotel. Somente uma pessoa sabia da minha existência naquele lugar. Adolf Since, o senhor macróbio e gordo que morava na suíte presidencial do lado esquerdo do prédio, era dono das empresas de charutos Since e viúvo há trinta anos, era simpático e atencioso, vivia com as orelhas ocupadas por celulares caros e inéditos, mas nunca deixava de me dar boa noite e acenar com as mãos. Todas as noites Sr. Since me pedia pelo telefone da suíte uma taça de vinho tinto suave argentino e três torradas com manteiga e mel, dizia para subi-las pessoalmente, era cético em relação aos outros empregados. Eu batia na porta e abria sem avisar, deixava a bandeja em um criado-mudo perto da porta do banheiro, me virava e sempre encontrava o homem longevo a observar a cidade da sacada, antes de sair do quarto, eu mirava sua coleção de bebidas em uma estante de frente para à TV, com certeza Since não era um homem abstêmio, mas era de boa fé. Sucessivamente isso acontecia, até que numa sexta-feira fiquei abarrotado de serviço e não pude levar ao quarto o vinho e as torradas. Maldição, acho que perdera um amigo por tal desleixo. No sábado à noite, antes do velho chegar, fui na cachaçaria da frente e comprei uma garrafa do melhor vinho argentino e duas dos melhores whiskies para sua coleção, sorte minha não ter filhos, pois, gastei metade do meu salário em álcool. Esperei-o chegar e ligar, arrumei a bandeja de torradas e coloquei o vinho ainda fechado do lado do prato, para agrado, escrevi um breve bilhete de desculpas e o coloquei amarrado no pescoço da garrafa. Assim que Since entrou, apertou os olhos ao me oferecer um sorriso gentil, já no meio do salão, com seu sobretudo marrom esvoaçando e pingando por causa da chuva. Nem parecia se importar com o acontecido da noite anterior, talvez nem lembrasse, um homem daquele porte tinha coisas muito mais importantes para se preocupar. Dinheiro, vendas contratos, viagens, sua coleção de bebidas, negócios... Amizade nunca esteve na sua lista. O que estou falando, ele só me cumprimentava por educação, ou por pena, não era meu amigo, nunca foi. Mesmo eu sentindo um vazio em seus passos, em sua fala ou até mesmo em seus acenos, tudo que eu via era um homem farto e inócuo, carente de realidade, rotina e mediocridade, só precisando de gente, não bonecos executivos e gráficos, sua generosidade era um pedido de socorro e atenção... “Ei, me tratem como uma pessoa normal!” Talvez fosse isso que sua alma quisera gritar. Seis horas e quarenta e sete minutos exatos se passaram após sua chegada, e o telefone continuava mudo, resolvi por conta própria subir com a bandeja, afinal, Sr. Since confiava em mim. Três e quarenta e nove e eu já estava a dois andares do velho, às três e cinquenta bati em sua porta e adentrei a suíte, deixei a bandeja no criado-mudo e as duas garrafas de whisky na mesa perto da sacada, não vi o homem olhar a cidade. Mas é claro que não, eu estava seis horas atrasado, ele devia estar dormindo, mas... a cama era do lado do criado-mudo, e eu estava exatamente em frente à cama! Onde diabos esse velho estava? Às três e cinquenta e dois eu senti um cheiro estranho no quarto e vinha do banheiro que por coincidência iluminava um pouco o carpete rubro do quarto com a fresta de luz escapada pelo vão da porta, decidi ver o que era, já que Since não estava no quarto. Em passos silenciosos fui ao banheiro, às três e cinquenta e três eu encostei as mãos suadas e frias na porta escura e rústica ao lado da cama, empurrei devagar a madeira lisa, escarafunchei com cuidado a fresta que deixei aberta e com a cabeça baixa chamei Since duas vezes, depois de não ser respondido, chamei-o por Adolf, mesmo assim não tive resposta, com calma fui levantando o olhar, até me deparar com sangue na porcelana do chão; em um súbito de inconformismo, minhas pupilas dilataram e fui ao encontro do corpo de meu suposto subordinador e amigo. Estava lá, nu dentro da banheira com a água suja e homogênea misturada em sangue, a torneira ainda estava pingando e aos poucos manchando o banheiro de morte, vendo a banheira transbordar e meu amigo estirado com a cabeça cortada, observei a marca do charuto pendurado em sua boca. Since. Quem diria que a fumaça atacaria sua bronquite, incrível não? O homem, antes de tentar se afogar, quis fumar um charuto Since e para a sua surpresa engasgou com o gosto da solidão, escorregou ao pisar no maldito piso de porcelana molhado e bateu com a cabeça na quina da banheira, morreu sozinho, sem vinho nem torradas, engasgou com a própria empresa às nove e nove em um sábado à noite. E às três e cinquenta e quatro vi sem eutanásia a depressão engolir um homem que nem ao menos viveu para morrer. *Rafaella Elika Borges é escritora e mantém uma coluna semanal neste DC Ilustrado.

Edição EDIÇÃO 16963




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