NA HORA
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Cuiabá MT, Sexta-feira, 19 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 16 de Abril de 2011, 13h:48

CRÔNICA

Surreal

Luís Gonçalves
Especial para o Diário de Cuiabá
O rio escorria lentamente pelo gargalo e a restinga de areia vinha observar a fuga sorrateira. Alguns passos afoitos pelo calor disputavam a pouca praia que surgia do matagal surrado pela correnteza. Ressabiado pelas águas pantaneiras aproximei do parapeito do rio e percebi que o adeus do caudaloso tocava uma sinfonia sensual com versos tropicalista. Um corpo quarava no sol vermelho do entardecer. Era a única nota que rimava com aquele clássico final de estação. Seria uma composição de rimas e versos vagabundos se não houvesse a dança sutil da vegetação rasteira. Das águas, em movimento, desprendia um aroma úmido e frio. Levei a curiosidade para perto daquela estatueta que compunha o cenário que seria a festa da próxima estação. Era a primeira modelo a estrear aquele palco de segunda intenção. Decidido aproximei tentando disputar o papel. Quiçá roubar a cena daquele painel colorido. À medida que aproximava os relevos mexiam com a minha cabeça me levando a aumentar as passadas e a pensar coisas que só existem da forma mais platônica possíveis. Parei á dois passos de cometer um crime. A silhueta fervilhava a óleo e sol do entardecer. O rosto coberto pela cabeleira revoltada com o vento vadio que empurrava a correnteza do rio pelas curvas da planície. A respiração suave deixava o corpo bailar numa valsa que dava maior brilho a pele sapecada pelo sol ardente. Sentei ao lado e fiquei ouvindo meus pensamentos. Alguns não valem à pena relatar. Outros poderiam levar a conjecturas infelizes. O cheiro de pele queimada exalava um odor provocante. Aquela figura jogada na areia fazia o filme da minha vida. Uma real mistura de drama e ficção que só me excitava. Pensei estender a mão e tocar. Apenas tocar. Mas ponderei, a cena era tão pura que não merecia outra interferência. Lastimei não ter a mesma audácia de um maluco qualquer. Olhei ao redor e percebi que era a única testemunha dessa fraqueza. Ela levantou a cabeça e olhou para os lados até me encontrar. Nossos olhos se chocaram e vi ali acontecer um acidente que mudaria totalmente a narrativa. Quando toquei seus lábios senti o coração murmurar algo que mudaria a minha vida. Entre nós não houve tempo para as palavras. Apenas inquietações da alma. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16965




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