ILUSTRADO
Domingo, 23 de Agosto de 2009, 00h:03
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HOMENAGEM
Rio e São Paulo celebram Dolores Duran
Lucas Nobile
Agência Estado
Em 23 de outubro de 1959, Dolores Duran chegou em casa às 7 horas da manhã e fez o seguinte pedido à sua empregada: "Não me acorde. Estou cansada. Vou dormir até morrer". Tendo seu desejo atendido pela doméstica, a cantora e compositora morreu dormindo, aos 29 anos, vítima de uma combinação fatal entre álcool, estresse e barbitúricos. Na última sexta (21), quase 50 anos após sua morte, a obra de Dolores - que nunca feneceu na história do cancioneiro popular nacional - voltou aos palcos para uma justa homenagem. Comemorando também 20 anos do Centro Cultural Banco do Brasil, os amigos e familiares de Dolores - nascida na Saúde, bairro pobre do centro do Rio de Janeiro, em 7 de junho de 1930, e batizada como Adiléa da Silva Rocha - se apresentam em três locais diferentes com um total de 42 canções no espetáculo O Lado B de Dolores Duran. A proposta das apresentações é dividir com o público a faceta menos lembrada da cantora, um lado B, de voz mais sorrateira e intimista, com versos bem pronunciados e coloquiais. Características de uma fase de Dolores que, ao lado de outros precursores, ajudaram a construir uma ponte de transição do sambas-canção enaltecedores das dores de cotovelo para a calmaria dos dias ensolarados da bossa nova. "Ao todo serão 15 canções compostas pela Dolores. Ela ficou muito conhecida pela fossa e pela dor de cotovelo, mas teve um lado contemporâneo e vanguardista que influenciou muita gente", diz Leonardo Conde, diretor e produtor executivo do espetáculo. Já ontem, na Barra Funda, São Paulo recebeu a sobrinha de Dolores, Izzy Gordon, e as contemporâneas da homenageada, Claudete Soares e Alaíde Costa. Além de sucessos como Estrada do Sol (parceria de Dolores com Tom Jobim) e My Funny Valentine (cuja interpretação de Dolores foi classificada por Ella Fitzgerald como a melhor da história, mesmo tendo concorrentes do gabarito de Chet Baker e Frank Sinatra), uma música inédita, sem título, será apresentada por Alaíde Costa. "Vou mostrar uma canção que nem a família da Dolores tem conhecimento. É uma composição dela com o Edinho, do Trio Irakitan, que ele me deu, na Rádio Nacional, pouco antes de falecer", diz Alaíde Costa, coincidentemente com dores de cotovelo após passar por uma operação no local. "Minha convivência com a Dolores foi muito rápida. Enquanto eu ainda estava nos programas de calouros, ela já fazia o maior sucesso", completa. Também ontem, em São Paulo, na Praça do Patriarca, no centro, as homenagens continuaram nas vozes da irmã de Dolores, Denise Duran, Pery Ribeiro e Os Cariocas, com destaque para Se é por falta de adeus, Por causa de você (ambas parcerias com Jobim) e O negócio é amar (música de Dolores que recebeu letra de Carlos Lyra em 1983). Na terça-feira, dia 25, às 13 horas e às 19h30, no CCBB, no centro do Rio de Janeiro, as irmãs Soraya Ravenle, vencedora do Prêmio Shell de 1999, na categoria Melhor Atriz, com o musical Dolores, e Ithamara Koorax cantam joias como Fim de caso e A noite de meu bem (sucesso na voz de Lúcio Alves). "A Soraya incorporou a personagem da Dolores", diz Conde.