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Cuiabá MT, Domingo, 14 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 01 de Dezembro de 2007, 09h:30

RESENHA

Relembrando a música do Casal Pommot

Duo era apreciado nas Sessões Lítero-Musicais da Academia Mato-Grossense de Letras

Ney Arruda
Especial para o Diário de Cuiabá
A realização do jornalismo cultural cobra sempre a pesquisa de campo. Não basta ler um livro, escutar um CD ou assistir um concerto. É preciso ir à sociedade e falar com as pessoas. A investigação direta em busca de fatos e documentação é uma constante. Lógico que a Internet ajuda como ferramenta de apoio. Porém, não deve ser o fator principal das matérias. É preciso com acuidade saber buscar um tema periodístico. Pois bem, todas as vezes que visitei na década de 80 o antigo Conservatório Mato-Grossense de Música, observava que as salas de aula eram batizadas com nomes famosos. Intrigava-me sempre a sala “Casal Pommot”. Quem teriam sido? Com o tempo descobri que era uma homenagem ao par formado pelo violinista francês Georges Pommot (Ville D’Autun, 1887 – Cuiabá, 1983) e pela pianista mato-grossense Maria Ambrósio Pommot (Cáceres, 1908 – Cuiabá, 1991). Fui à busca de dados e acabei sendo gentilmente recebido pela filha do casal, Sra. Marly Pommot. Em sua residência nesta Capital, esta funcionária aposentada da Secretaria de Cultura do Estado, concedeu uma agradável entrevista ao DC Ilustrado. Pois bem, o Casal Pommot consta dos anais da história cultural deste Estado, segundo o culto Lenine Póvoas. Esse duo era presença apreciada nas Sessões Lítero-Musicais da Academia Mato-Grossense de Letras, inclusive sob a presidência do ilustre Dom Aquino Correa. Nos idos de 1930 abriam e encerravam as provas públicas com performances de piano e violino do Instituto Mato-Grossense de Música. Esta, verdade seja dita, foi a primeira organização educacional na área da música em nosso Estado. Foi época da diretora Gertrudes Machado Ribeiro (Dona Filhinha), da Profa. Zulmira Canavarros e da Profa. Maria Ambrósio, as mais célebres e pioneiras pedagogas do piano de então. O casal, segundo Dona Marly, conheceu-se ocasionalmente em Cáceres e tocaram numa audição. Georges Pommot veio para o Brasil formado em “engenharia de minas” (a atual Geologia). Estava realizando atividades como agrimensor demarcando terras na região de Jaurú, Cabaçal, Rio das Mortes e Barra do Bugres. Como carreira artística paralela, o violinista obteve pujante formação musical em Paris. Por razão da ‘tacha’ de ser estrangeiro, a família não abonou o namoro. Imaginem: Dona Marly nos contou que o casal fugiu de Cáceres remando numa canoa até Corumbá pelo Rio Paraguai. Em 1947 é fundado o Centro Artístico e Musical de Cuiabá que funcionou primeiramente em uma sala do atual Museu Histórico de Mato Grosso na Praça da República. As apresentações do Casal Pommot abrilhantavam eventos culturais em Cuiabá com uma freqüência quase que semanal. Estiveram presentes na inauguração da TV Centro América. O desbravador programa “Nossas Gentes, Nossos Valores” do jornalista Paulo Zaviasky também enfocou o casal. Como precursor do ensino do violino em Mato Grosso, Georges Pommot teve como destacados alunos o imortal acadêmico Luis Felipe Pereira Leite, o médico Cervantes Caporossi e o advogado Chauk Stephan. O violinista também escreveu um livro de reminiscências editado na França sobre suas viagens ao interior do bravio Mato Grosso de outrora. A filha do casal disse que sua mãe teve incontáveis alunos. Lecionava manhã e tarde e, segunda a mesma, a mais notória aluna foi a querida Profa. Dalva Lúcia Duarte. Maria Ambrósio Pommot estudou piano e francês no Colégio Syon em Petrópolis (RJ). Vindo lecionar a língua gaulesa no Colégio Estadual de Mato Grosso (atual Liceu Cuiabano) e na Escola Normal Pedro Celestino. Georges, seu esposo, fez carreira como docente também na cátedra de desenho do Liceu Cuiabano. Mas o que gostavam mesmo era da Música de Câmara. Feita em abundância juntamente com Zulmira Canavarros. Até em casamentos, Georges tocou com Dunga Rodrigues, quando Dona Maria detinha outros compromissos inadiáveis. Dona Marly Pommot acaba de doar um precioso tesouro a Universidade Federal de Mato Grosso. Trata-se do acervo total de partituras didáticas e de concerto para violino e piano que pertenceu ao casal. Ela explicou que o material, já devidamente catalogado, se encontra na operosa Coordenação de Cultura e deverá ser disponibilizado para consulta pública na Biblioteca Central da UFMT, dentro em breve. Assim todos os acadêmicos do Departamento de Artes, músicos amadores e profissionais poderão consultar o estoque de cultura musical que enriqueceu aquela estratégica biblioteca do Estado de Mato Grosso. A julgar por minha análise preliminar do catálogo, são obras de compositores tradicionais europeus e brasileiros com relevante grau de dificuldade técnica, o que denota o nível artístico do duo Pommot de piano e violino. Sem dúvida, serão obras importantes aos discentes de disciplinas como: Prática Instrumental, Análise Musical e Linguagem da Música. Bravíssimo Casal Pommot! Agora sua memória histórica está garantida por gerações de novos músicos em nossas terras limítrofes do Brasil. *Ney Arruda é mestre em Teoria e Filosofia do Direito (UFSC), doutorando pela Universidad de Burgos (Espanha), violinista cuiabano e colaborador do DC Ilustrado ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16962




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