Ativo aos quase 80 anos e com a classe habitual, o veteraníssimo Claude Chabrol (Mulheres Diabólicas, Madame Bovary, A Dama de Honra) desafia o espectador com um jogo de ciladas intelectuais em A Comédia do Poder (LInvresse du Pouvoir, França,2007/Imagem), que ele dirige baseado livremente em um escândalo político e financeiro ocorrido na França. Em Paris, a poderosa juíza Jeanne Charmant Killman (a sempre excepcional Isabelle Huppert, em mais uma brilhante parceria com o cineasta) manda prender Michel Humeau (François Berléand) presidente de um grupo industrial envolvido em falcatruas, negociatas e desvio de verbas. Quanto mais o executivo reluta, mais Jeanne o pressiona e logo descobre que ele é apenas a ponta do iceberg de corrupção nos altos escalões. Pressionada de todos os lados, a durona sofre um misterioso acidente, que provoca abalos e rupturas em sua vida doméstica. Aos poucos, a obsessão pelo caso e as pressões dos investigados começam a minar a magistrada. Não espere uma contundente denúncia política à Costa-Gravas. Mas engana-se quem, por isso, o achar frugal. Sempre há muito mais por trás daquilo que o mestre Chabrol estende na superfície da tela. Simples e objetivo, o filme é um exercício de ironia e suspense sobre relações de poder, em que os pequenos gestos significam mais que as grandes armações. Quem tem mais poder neste embroglio político-financeiro? O público ou o privado? É ai que a coisa vira uma comédia, como sugere o titulo em português. Embora a situação seja trágica. (J.C.)