ILUSTRADO
Sábado, 12 de Fevereiro de 2011, 13h:34
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RESENHA
Programa em Paris: Orchestre Lamoureux
O grupamento sinfônico de 84 músicos premiou a platéia de cerca de 700 pessoas com uma massa sonora impactante. Mas a obra de Richard Wagner é um sustentáculo genuíno por si só
Ney Arruda*
Especial para o DC Ilustrado
Em visita de pesquisa à Biblioteca Nacional da França, no último domingo (06/02), tive a oportunidade de assistir no charmoso Theatre dês Champs-Elysees ao concerto da orquestra parisiense Lamoureux. O belo edifício está situado na avenida Montaigne a pouca distância da Torre Eiffel. Não foi difícil encontrá-lo devido ao excelente sistema de transporte público de Paris. Seja de ônibus ou de metrô, tudo estava muito bem sinalizado. Muito diferente de dez anos atrás quando conheci a cidade. As ruas estavam limpas como cristais das cafeterias. Em realidade, eu queria saber o que estava acontecendo no frio final de tarde depois de visitar o Museu do Louvre. Foi simples: compramos a publicação de 214 páginas denominada Pariscope por 80 cents de euro. Nela se pode saber tudo sobre teatro, jazz, exposições, cinema e concertos. Num domingo de 37 apresentações sinfônicas e abundante música de câmara. Estava bem difícil escolher. Até o maestro Daniel Barenboim regeria um grupo de Berlin naquele dia. Optamos pela belíssima performance da Orchestre Maloureux, fundada em 1881 por Charles Lamoureux. Recordava o programa de concerto que em 1901 ela se transformou em associação reconhecida como de utilidade pública pela Secretaria de Cultura e Comunicação da Prefeitura de Paris. No programa constava uma récita totalmente consagrada a um compositor alemão. Objeto de reverência de alguns e temor de novéis músicos ouvimos Richard Wagner. Sem nenhum cantor ou cantatriz solista. Apenas aberturas e prelúdios instrumentais das óperas Tristan e Isolda, Lohengrin, Rienzi e as Valquírias. O grupamento sinfônico de 84 músicos premiou a platéia de cerca de 700 pessoas com uma massa sonora impactante. É bem verdade que o colorido da tessitura musical de Wagner é um sustentáculo genuíno por si só. Contudo há que se destacar a docilidade da afinação perfeita da orquestra centenária. Interessante registro façamos em prol do fato de que há uma presença maciça de musicistas mulheres. Inclusive na liderança da maioria dos naipes sinfônicos. Do setor em que estávamos eu e minha amada esposa, pudemos apreciar uma curiosa coreografia. Pois jamais havia notado com tanto rigor um certo balé de braços e mãos, subindo e baixando, segurando os arcos de cellos, baixos, violas e violinos. Assemelhavam-se a pássaros que partiam em revoada, regressando prontamente aos lugares primitivos. Uma combinação de excelência entre sons e harmoniosas imagens. Disciplina profissional e virtuosismo musical que incorporava a cada compasso, a spalla Bernadette Gardey. Quanto ao maestro Marco Parisotto, talvez seja conveniente apenas mencionar que seus cabelos brancos refletiam o auge de sua experiência como regente. Pois ao menor de seus gestos, a orquestra correspondia com precisão instantânea. Ofertando-nos ondas sonoras vibrantes. Que se pareciam banhistas que entram no mar pela primeira vez numa nova temporada de praia. Navegamos pelo rio Sena numa embarcação a 4.º C, rumo ao bairro latino para jantar. Tive um insight de consciência sobre o alto nível técnico urbanístico alcançado por Paris. Em realidade, a cidade não teria se transformado numa das capitais culturais da Europa, se não fosse a conduta das autoridades e a plena aplicação de verbas públicas para o bem comum social. Sem dúvida, uma excelente lição para os povos da América do Sul. *Ney Arruda complementa estudos na Espanha e colabora com o DC Ilustrado