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BRASIL
Terça-feira, 16 de Junho de 2026, 15h:01

SAÚDE-TRANSPLANTE

Transplante renal pareado amplia opção para pacientes que têm doador, mas não podem receber o rim

CLÁUDIA COLLUCCI
Da Folhapress - São Paulo

  Pela primeira vez no Brasil, dois centros transplantadores de cidades diferentes realizaram um transplante renal com doação pareada. A estratégia permite trocar doadores vivos incompatíveis por outros mais adequados aos receptores.

A iniciativa, conduzida pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) e pela Santa Casa de Juiz de Fora (MG), abre uma nova possibilidade para pacientes que têm um familiar ou amigo disposto a doar um rim, mas que não podem receber o órgão por incompatibilidade sanguínea ou imunológica.

Hoje, cerca de 45 mil pessoas aguardam por um transplante de rim no Brasil. O órgão tem a maior demanda na fila nacional, representando cerca de 92% de toda a lista de espera por órgãos no país, e é também o mais transplantado no país. Em 2025, foram 6.697 cirurgias, marca inédita, com crescimento de 5,9% em relação a 2024.

O procedimento foi realizado em maio, em um protocolo de pesquisa aprovado pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa do Hospital das Clínicas. Ambos os pacientes passam bem.

As cirurgias ocorreram simultaneamente nas duas instituições: um doador de São Paulo viajou para Juiz de Fora para doar ao receptor mineiro, enquanto o doador da cidade mineira foi ao Hospital das Clínicas, na capital paulista, para realizar a doação ao paciente paulista.

A realização simultânea é uma das medidas de segurança do modelo, segundo o professor Elias David Neto, diretor do Serviço de Transplante Renal do HC. "É importante porque evita que um dos doadores desista depois que o outro procedimento já foi realizado", afirma.

O transplante renal com doação pareada funciona como uma espécie de "troca organizada". Um paciente que precisa de um rim pode ter um doador —como um irmão, cônjuge ou amigo próximo—, mas esse órgão pode não ser compatível.

Ao mesmo tempo, outro paciente pode estar em situação semelhante: seu doador não serve para ele, mas pode ser compatível com o primeiro receptor. Com a troca, os dois pacientes conseguem receber um rim de um doador vivo.

"Quando faz essa troca, você tira essas pessoas da lista de doador falecido e aumenta o número de transplantes", explica o professor.

A estratégia é utilizada há anos em países como Estados Unidos e Japão, mas ainda não foi incorporada à rotina dos transplantes brasileiros. No país, o procedimento segue como pesquisa porque não existe uma regulamentação específica do Sistema Nacional de Transplantes para a modalidade.

Segundo David Neto, a principal justificativa apresentada para a não regulamentação é a ausência de uma norma específica. Para ele, a legislação precisa acompanhar avanços que já demonstraram segurança em outros sistemas de saúde. "As leis não conseguem antecipar o progresso da sociedade. Primeiro uma prática começa a existir, depois vem a regulamentação", diz.

O especialista afirma que não há um conflito ético novo em relação ao transplante pareado, porque o Brasil já permite, em determinadas circunstâncias, a doação de pessoas sem parentesco direto, desde que haja autorização judicial e comprovação de ausência de interesse financeiro.

"A finalidade da lei é impedir o comércio de órgãos. No transplante pareado, o doador não está vendendo o rim. Ele está doando para que outra pessoa receba um órgão compatível e para que seu familiar ou pessoa próxima também tenha acesso ao transplante", afirma.

Hoje, a legislação brasileira permite a doação em vida entre parentes de até quarto grau e cônjuges. Nos casos de pessoas sem vínculo familiar, é necessária autorização judicial. No transplante pareado, a lógica é que o doador concorda em doar para um desconhecido porque seu familiar ou amigo também será beneficiado com a troca.

A experiência realizada entre São Paulo e Minas Gerais foi o primeiro caso envolvendo dois centros diferentes no país. O HC já havia realizado um transplante pareado em 2020, mas entre pacientes acompanhados pela própria instituição.

A novidade agora é a integração entre hospitais, permitindo que diferentes centros compartilhem informações de potenciais doadores e receptores. "Quanto mais centros colocarem seus pares incompatíveis em uma mesma base de dados, mais fácil será encontrar combinações possíveis", explica o professor.

O sistema utilizado para encontrar os pares compatíveis é uma plataforma internacional desenvolvida nos Estados Unidos, que cruza informações como características imunológicas, tamanho corporal e qualidade do rim do doador. A ferramenta permite identificar quais combinações oferecem maior chance de sucesso.

Para Elias David Neto, ampliar o número de instituições participantes é o próximo passo para que a estratégia tenha impacto nacional. "Se vários centros transplantadores entrarem nessa mesma base de dados, vamos conseguir encontrar mais pares e retirar mais pessoas da fila de espera por um rim", afirma.

A fila de transplante renal no Brasil é formada principalmente por pacientes que dependem de um órgão de doador falecido. A expansão do transplante com doador vivo pode reduzir essa demanda e reservar os órgãos de doadores falecidos para aqueles que não têm outra alternativa.

Os dois pacientes transplantados no procedimento pioneiro tiveram boa evolução clínica. O paciente do HC recebeu alta no quinto dia após a cirurgia. O paciente transplantado em Juiz de Fora também se recuperou e deixou o hospital após sete dias.

Para os especialistas envolvidos, o caso demonstra que a barreira atual é menos tecnológica do que regulatória e logística. "É uma técnica realizada em muitos países do mundo. Quanto mais demorarmos para incorporar, mais pacientes deixam de se beneficiar", afirma David Neto.


Edição EDIÇÃO 16963




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